Este blogue sempre destacou a família Cortez, Gomes de Melo, Pegado Cortez, Bezerra e Dantas, mas está aberto a todos os pesquisadores para divulgar informações genealógicas das famílias do Seridó. "Marica Pegado" continuará a ícone histórica do blogue.
quarta-feira, 22 de março de 2017
quarta-feira, 1 de março de 2017
A Baronesa de Ceará-Mirim
Na internet, tomamos conhecimento que as informações sobre o Barão de Ceará-Mirim continuam desencontradas. Tanto há discordâncias quanto ao nome do pai de Manoel Varela do Nascimento, quanto a data do seu nascimento. Por mais pesquisa que se faça, não se chega a um denominador comum. E mesmo com a divulgação do seu casamento, vários escritos sobre o barão não corrigiram suas informações.
Minha família Trindade, lá de Angicos, vivia, em sua maioria, em Santa Luzia, onde se localiza uma das propriedades do barão. Encontramos, vários eventos religiosos onde Manoel Varela do Nascimento e seus familiares se apresentaram como padrinhos ou testemunhas.
Para exemplificar, em 27 de dezembro de 1755, na Matriz de São José de Angicos, ocorreu o batizado de Francisca, filha legítima de João Batista da Costa Xavier e de Michaela Francisca da Trindade, esta minha tia-bisavó. A batizada tinha nascido aos 30 de novembro desse mesmo ano, e teve como padrinhos Manoel Varela do Nascimento e sua esposa Bernarda Varela Dantas, moradores em Extremoz, por procuração passada ao casal José Bonifácio da Trindade e Rosa Maria da Conceição.
As dificuldades para se fazer algumas genealogias aumentam quando uma mesma pessoa aparece com vários sobrenomes, e algumas vezes com nomes diferentes.
A ascendência de da Baronesa é mais rica em informações, pois vai até os mártires de Uruassú, Antônio Vilela Cid e Estevão Machado de Miranda. Ela era filha de Francisco Teixeira de Araújo e de Izabel Xavier de Sousa, que casaram em 8 de fevereiro de 1804. Esses pais de dona Bernarda eram parentes muito próximos, pois foram dispensados no 3° e 4º graus de consanguinidade. Os pais de Francisco Teixeira de Araújo eram o português José Teixeira da Silva e Thereza Duarte de Jesus, enquanto os pais de Dona Izabel eram o capitão Francisco Xavier de Sousa e Dona Bernarda Dantas da Silveira.
Para entender melhor esse parentesco dos pais de Dona Bernarda, que herdou o nome da avó materna, vamos avançar na sua ascendência. O português José Teixeira da Silva tinha como pais João Teixeira da Silva e Maria Joana, enquanto sua esposa, Thereza Duarte de Jesus, era filha de João Rodrigues Seixas e Dona Joana Rodrigues Santiago; já o capitão Francisco Xavier de Sousa era filho do baiano Francisco Xavier de Sousa e Thereza Duarte de Jesus, enquanto os pais de sua esposa, Dona Bernarda Dantas da Silveira, eram o mestre de campo, o português Sebastião Dantas Correia, e sua mulher Dona Ana da Silveira Freire.
As bisavós Joana Rodrigues Santiago e Thereza Duarte de Jesus, a primeira paterna, e a segunda materna, eram irmãs, sendo ambas filhas de Salvador de Araújo Correia e Isabel Rodrigues Santiago. Esse parentesco das bisavós é que gerou a dispensa de 3º grau entre os pais da Baronesa.
Isabel Rodrigues Santiago, trisavó da Baronesa, era filha de Manoel Rodrigues Santiago e de Catharina Duarte de Azevedo. Esta, por sua vez, era filha de Manoel Duarte de Azevedo e Margarida Machado de Miranda. Segundo o memorialista Manoel Maurício Correia de Sousa, no seu manuscrito sobre as famílias de Utinga, datado de 1840, Margarida era a filha do mártir Estevão Machado de Miranda e Dona Bárbara Viela Cid. Esta última, por sua vez, era filha do outro mártir, Antônio Vilela Cid e de Dona Ignez Duarte, irmã do Padre Ambrósio Ferro, também sacrificado em Uruassú.
Não foi possível identificar o parentesco de 4º grau entre os pais de Dona Bernarda, mas desconfio que se dá através das trisavós deles, Joana da Silveira, pelo lado paterno, e Domingos da Silveira, pelo lado materno. É possível que esses trisavôs fossem irmãos.
A Baronesa de Ceará-Mirim e os mártires de Uruassú
Por João Felipe da Trindade
jfhipotenusa@gmail.com
jfhipotenusa@gmail.com
Na internet, tomamos conhecimento que as informações sobre o Barão de Ceará-Mirim continuam desencontradas. Tanto há discordâncias quanto ao nome do pai de Manoel Varela do Nascimento, quanto a data do seu nascimento. Por mais pesquisa que se faça, não se chega a um denominador comum. E mesmo com a divulgação do seu casamento, vários escritos sobre o barão não corrigiram suas informações.
Minha família Trindade, lá de Angicos, vivia, em sua maioria, em Santa Luzia, onde se localiza uma das propriedades do barão. Encontramos, vários eventos religiosos onde Manoel Varela do Nascimento e seus familiares se apresentaram como padrinhos ou testemunhas.
Para exemplificar, em 27 de dezembro de 1755, na Matriz de São José de Angicos, ocorreu o batizado de Francisca, filha legítima de João Batista da Costa Xavier e de Michaela Francisca da Trindade, esta minha tia-bisavó. A batizada tinha nascido aos 30 de novembro desse mesmo ano, e teve como padrinhos Manoel Varela do Nascimento e sua esposa Bernarda Varela Dantas, moradores em Extremoz, por procuração passada ao casal José Bonifácio da Trindade e Rosa Maria da Conceição.
As dificuldades para se fazer algumas genealogias aumentam quando uma mesma pessoa aparece com vários sobrenomes, e algumas vezes com nomes diferentes.
A ascendência de da Baronesa é mais rica em informações, pois vai até os mártires de Uruassú, Antônio Vilela Cid e Estevão Machado de Miranda. Ela era filha de Francisco Teixeira de Araújo e de Izabel Xavier de Sousa, que casaram em 8 de fevereiro de 1804. Esses pais de dona Bernarda eram parentes muito próximos, pois foram dispensados no 3° e 4º graus de consanguinidade. Os pais de Francisco Teixeira de Araújo eram o português José Teixeira da Silva e Thereza Duarte de Jesus, enquanto os pais de Dona Izabel eram o capitão Francisco Xavier de Sousa e Dona Bernarda Dantas da Silveira.
Para entender melhor esse parentesco dos pais de Dona Bernarda, que herdou o nome da avó materna, vamos avançar na sua ascendência. O português José Teixeira da Silva tinha como pais João Teixeira da Silva e Maria Joana, enquanto sua esposa, Thereza Duarte de Jesus, era filha de João Rodrigues Seixas e Dona Joana Rodrigues Santiago; já o capitão Francisco Xavier de Sousa era filho do baiano Francisco Xavier de Sousa e Thereza Duarte de Jesus, enquanto os pais de sua esposa, Dona Bernarda Dantas da Silveira, eram o mestre de campo, o português Sebastião Dantas Correia, e sua mulher Dona Ana da Silveira Freire.
As bisavós Joana Rodrigues Santiago e Thereza Duarte de Jesus, a primeira paterna, e a segunda materna, eram irmãs, sendo ambas filhas de Salvador de Araújo Correia e Isabel Rodrigues Santiago. Esse parentesco das bisavós é que gerou a dispensa de 3º grau entre os pais da Baronesa.
Isabel Rodrigues Santiago, trisavó da Baronesa, era filha de Manoel Rodrigues Santiago e de Catharina Duarte de Azevedo. Esta, por sua vez, era filha de Manoel Duarte de Azevedo e Margarida Machado de Miranda. Segundo o memorialista Manoel Maurício Correia de Sousa, no seu manuscrito sobre as famílias de Utinga, datado de 1840, Margarida era a filha do mártir Estevão Machado de Miranda e Dona Bárbara Viela Cid. Esta última, por sua vez, era filha do outro mártir, Antônio Vilela Cid e de Dona Ignez Duarte, irmã do Padre Ambrósio Ferro, também sacrificado em Uruassú.
Não foi possível identificar o parentesco de 4º grau entre os pais de Dona Bernarda, mas desconfio que se dá através das trisavós deles, Joana da Silveira, pelo lado paterno, e Domingos da Silveira, pelo lado materno. É possível que esses trisavôs fossem irmãos.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
Município do Seridó abriga a partir desta quinta-feira (16) uma mostra sobre a história e cultura do Rio Grande do Norte, inspirada na obra do escritor Luís Câmara Cascudo.
A exposição Descobrindo o Rio Grande do Norte com Luís da Câmara Cascudo estará aberta ao público seridoense, de segunda à sexta, das 8h às 16h30, no Centro de Educação José Augusto-Ceja.
A exposição exibe peças que revelam detalhes da linha do tempo do Estado e seu contexto no Brasil e no mundo, com destaque também para aspectos fundamentais da cultura seridoense.
Haverá uma recepção onde estão instalados textos sobre a história da região, com ênfase em canções alusivas a região e na exibição de figuras rupestres.
Para ilustrar a mostra foi produzido um catálogo especial com 46 páginas com ilustrações, informações sobre a vida social, o folclore, a formação étnica, entre outros temas relativos ao Rio Grande do Norte.
CÂMARA CASCUDO E A HISTÓRIA POTIGUAR DESDE A CHEGADA DOS PORTUGUESES
Recortes da obra literária do etnógrafo conduzem o passeio pela história, desde a chegada dos portugueses.
A tradição indígena, a invasão holandesa, a fundação de Natal e seu desenvolvimento, o papel da capital norte-rio-grandense na 2ª Guerra Mundial, até o panorama atual.
A mostra toma como base o livro História da Cidade do Natal, do autor potiguar.
A iniciativa consiste em um passeio entre corredores históricos e galerias do Memorial, guiado pelo próprio Câmara Cascudo, através de recortes da sua obra literária.
Composta por grandes painéis, bonecos em tamanho real de personagens ilustres e heróis potiguares, artefatos, livros, miniaturas, além de uma diversidade de objetos museológicos, a Mostra também traz painéis com textos de Câmara Cascudo, mapas, cartas náuticas, pinturas, fotografias.
Tudo para despertar no visitante o interesse e valorização pela história potiguar e pela obra de Cascudo.
A exposição é promovida pelo Governo do Estado, através da Fundação José Augusto. Visitas de escolas e entidades podem ser marcadas pelo telefone 3417 1715. [Agenda Substantivo Plural]
Fotos relacionadas à publicaçã
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Tomislav relembra seu amigo Assis Amorim.
O tempo e o espaço dos amigos
Tomislav R. Femenick – Historiador
Algumas ocorrências recentes provocaram em mim sentimentos daquilo que antigamente se costuma chamar de “emoção existencialista”. Explico. Essa atitude se caracteriza pela mistura do conceito do mundo real com especulações sobre a busca da racionalidade, por meio de um conceito abstrato da existência. Não, não é nada filosófico e chato. No meu dia-a-dia “pão-pão, queijo-queijo” não há espaço para Kierkegaard, Heidegger, Sartre, Espinosa, Descartes e Leibniz. Isso eu deixo para os momentos de ócio absoluto, quando os pensamentos voam livres, desapegados da vida.
Foi assim que descobri algo que muitos outros já devem ter descoberto antes de mim: quando nascemos tem inicio um período em que pessoas, fatos e lembranças vão se agregando à nossa existência em uma velocidade e quantidade imensas. Pai, mãe, parentes, vizinhos, as brincadeira da infância, colegas da escola e do trabalho, as namoradas, as farras, as viagens, o que aprendemos nos estudos e pelo simples fato de viver. Alguns desses elementos permanecem vivos em nossa consciência, outros parecem desaparecer para inesperadamente reviverem, despertados por um incidente inesperado qualquer.
Em certa etapa da vida tem inicio um processo reverso. Começamos a perder lembranças de acontecimentos que no passado foram importante pera nós, nos distanciamos dos antigos vizinhos e colegas da escola e do trabalho e, o mais duro, começamos a perder para sempre parentes e amigos, ceifados pela inexorabilidade da morte.
Os últimos anos foram pródigos nessas perdas. Lá se foram minha mãe e minha tia Albinha, os últimos viventes de uma prole de vinte e um nascidos do casal José Rodrigues e de Dona Mariquinha, meus avós maternos. Da família de meu pai croata, nunca tive notícia a não ser de um primo, isso há quase sessenta anos. Perdi também vários amigos, entre eles Dorian Gray Caldas.
E agora recebo a notícia do falecimento de Assis Amorim. Esse um amigo especial. Tornamos-nos próximos nos encontros casuais havidos no coreto da Praça Antonio Joaquim, lá em Mossoró, quando discutíamos tudo, até o que não sabíamos nada de nada. Lá estava Assis e pontificar, com um vocabulário esmerado – depois descobrimos que ele se preparava para esses encontros e encaminhava a discussão para ai distribuir conhecimento. Pequenos pecados da juventude, mas que serviram para espalhar saberes.
Francisco de Assis Freitas Amorim (FAFA para os íntimos) era um ser com características variadas e peculiares. Idealizador e planejador de prédios sem ser arquiteto, construtor sem ser engenheiro, bancário do Banco do Nordeste – ocasião em que trabalhamos junto –, vereador, deputado estadual, economista, advogado e juiz. Acima de tudo era um ser de uma inteligência rara que só aqueles que desfrutaram de seu convívio podem aquilatar.
Lembro-me de uma série de conversa que uma vez tivemos. Nós, dois jovens inquietos intelectualmente, resolvemos entender a tal lei da relatividade de Einstein. Sempre empacávamos nos fatores “tempo” e “espaço”, os quais entendíamos como inseparáveis. Até que um dia resolvemos, por conta própria, separa-los e os projeta-los no curto e longo prazo. Isso sem ajuda de ninguém, nem do Padre Sátiro – nosso eterno professor e diretor –, pois éramos jovens e, como tal, autossuficientes. Trazendo nossa especulação para nosso terreno, resolvemos que “tempo” era uma questão de escolha pessoal e que o espaço era coisa de Deus. Simples assim. Como era bom ser jovens e descompromissados; compromisso só com nós mesmo.
Lamento bastante não ter me encontrado com Assis mais vezes nos últimos anos. Mesmo recentemente quando fui a Mossoró proferir palestra na UFERSA, na Universidade Estadual ou na Maçonaria não tive tempo de visita-lo. Agora me penitencio e vejo que desperdicei o meu tempo ao não encontra mais vezes o meu amigo e com ele jogar conversa fora.
Tribuna do Norte. Natal, 15.02.2017
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
HISTÓRIA
Fonte: dw.de
O alemão que mapeou o Brasil
Há dois séculos, Carl von Martius chegou ao país junto com a imperatriz Leopoldina. Partiu após três anos, deixando como legado um meticuloso levantamento da flora brasileira: o maior já realizado até hoje.
Von Martius retratou as paisagens em litografias, compiladas na obra "Flora brasiliensis", até hoje uma referência
Há 200 anos, Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) chegava ao Brasil como um dos integrantes da Missão Austríaca – que acompanhava a imperatriz Leopoldina por ocasião de seu casamento com dom Pedro 1º. A aventura do jovem botânico alemão, que percorreu mais de dez mil quilômetros por um Brasil inóspito, marcaria um dos mais importantes momentos para o conhecimento da flora nacional até então exótica e inatingível no imaginário mundial.
Von Martius ajudou a decifrar o Brasil
Durante os três anos em que passou no país (entre 1817 e 1820), Von Martius fez um meticuloso levantamento da flora brasileira – o maior já realizado. E a partir deste estudo, ele dividiu o Brasil em cinco biomas (Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Selva Amazônica e Pampas), uma divisão usada até hoje.
Para marcar a data, foi aberta no último fim de semana, no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio, a exposição "O mapa de Von Martius ou como escrever a história natural do Brasil". A exposição tem justamente como ponto de partida o mapa criado em 1858, em que o botânico propõe uma divisão regional para o país a partir dos biomas detalhados em sua expedição.
"Von Martius não foi o único a fazer uma proposta de regionalização do Brasil, mas teve essa visão de tentar compreender o território todo", explica a coordenadora de iconografia do IMS e curadora da exposição, Julia Kovensky. "Com o levantamento das plantas, ele visualizou esses grandes conjuntos, definiu biomas, e transferiu isso para uma divisão territorial do país."
Em companhia do zoólogo Johann Baptist von Spix, Von Martius fez expedições pelas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, colhendo e catalogando uma vasta quantidade de espécimes vegetais. Ele retratou as paisagens em litografias, compiladas na obra Flora brasiliensis (até hoje uma referência), reunindo 20 mil espécimes vegetais em 40 volumes. A exposição reúne 50 dessas paisagens, além do mapa.
"Estamos apresentando um pequeno conjunto de obras do primeiro volume da Flora brasiliensis, que são dedicados às paisagens brasileiras com as plantas inseridas", explica Julia. "São litografias com paisagens de diferentes regiões do Brasil, além do mapa com os biomas e algumas obras complementares."
O mapa dá um pouco da dimensão da aventura de se lançar pelo interior do país naquela época, até a região da atual fronteira com a Colômbia, saga relatada pelo naturalista nos três volumes do livroReise in Brasilien ("Viagem pelo Brasil"), publicado entre 1823 e 1831. O trabalho vai além da questão da flora e retrata um país em transformação, que se tornara a capital do Império português poucos anos antes e se abria para o mundo.
"Ele tinha um grande interesse por ciências naturais, mais especificamente por botânica", conta Júlia. "Mas, como muitos outros homens de sua época, tinha uma visão muito ampla e atuou em diferentes frentes."
De acordo com a historiadora Iris Kantor, da Universidade de São Paulo (USP), que também participou da curadoria da exposição, o levantamento feito por Von Martius produziu uma imagem do Brasil que até hoje está incorporada ao imaginário das elites. Para ela, analisar criticamente essa imagem é um desafio importante para compreender o país.
Floresta que sombreia as encostas das montanhas da Serra dos Órgãos, na Província do Rio de Janeiro (c.1840)
"Ele foi sem dúvida um dos pais fundadores da historiografia brasileira e de uma certa maneira de se fazer história", afirma Iris.
Em 1843, de Munique, Von Martius encaminhou uma proposta de como se deveria escrever a História do Brasil para um concurso organizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Seu programa de estudos incluía, pela primeira vez, a incorporação da participação popular na grande narrativa sobre a formação da nacionalidade.
"Assim, além dos indígenas e dos portugueses, ele sugeria a inclusão das populações de origem africana", diz Iris. "Algo muito atual como, por exemplo, o estudo da história do tráfico negreiro e das feitorias portuguesas no continente africano. Ele também chamou a atenção para a necessidade de investigar os mitos e tradições indígenas, por meio da incorporação da documentação oral."
A exposição no IMS pode ser vista até 16 de abril.
LEIA MAIS
- Data 07.02.2017
- Autoria Roberta Jansen (do Rio)
- Assuntos relacionados Brasil, Eduardo Campos, Arthur Zanetti , Caipirinha, Capoeira, Ernst Nolte, Samba, Ötzi,Museu Histórico Militar de Dresden, PEC 55
- Palavras-chave Brasil, Carl von Martius, história
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domingo, 5 de fevereiro de 2017
A freira do Convento Emáus, Iaponira Dantas Cortez, faleceu ontem, em Natal, vítima de complicações respiratórias , e foi sepultada na manhã de hoje, 5, no cemitério de Currais Novos, onde nasceu.
Iaponira pertencia a família pioneira da presença dos Pegado Cortez, oriunda de Arês/Goianinha/RN, na região do Seridó potiguar. Como freira, era conhecida por Irmã Maria Ambrosina. Trabalhou em Goiás e Brasília (Taguatinga) durante quase 50 anos, retornando ao RN após adoecer de um CA. Além de Everton, foram seus irmãos: Walter, Mauro, Olavo, Olivier, Iaponam ( pai de Cláudio e outros ), Euzébia e Nazaré. Segundo Iaris Cortez, filha de Everton e Genura, Iaponira era a filha caçula. Todas as três filhas de Joaquim Pegado Dantas Cortez/Guilhermina, tinham nomes compostos, como Maria Euzébia, Maria Nazaré e Maria Iaponira.
Na foto de 2002, no convento de Emaús, em Parnamirim, vê-se Maria José Cortês Caldas, sua filha Galganny com filha Isabella, nos braços, e Irmã Maria Iaponira Dantas Cortês.Foto gentilmente enviada por Galganny, nossa sobrinha.

Foto do casamento Eusébia Dantas Cortês- Zebinha, uma das irmãs de Iaponira. A maioria das moças são filhos de Everton Dantas Cortez e Alfredo Pegado Cortez.
À esquerda, Joaquim Pegado Cortez, conhecido como Tio Quincó, patriarca da família. Atrás do monsenhor Paulo Herôncio de Melo, vê-se Genura Ramalho Cortez, esposa de Everton, dentre outros familiares. Arquivo do blogue.
Dados extraídos do inventário de Maria Senhorinha Dantas Cortez-Marica Pegado, cujo inventariante foi Alfredo Dantas Pegado Cortez, pelo pesquisador Rodrigo Cortez.
Iaponira pertencia a família pioneira da presença dos Pegado Cortez, oriunda de Arês/Goianinha/RN, na região do Seridó potiguar. Como freira, era conhecida por Irmã Maria Ambrosina. Trabalhou em Goiás e Brasília (Taguatinga) durante quase 50 anos, retornando ao RN após adoecer de um CA. Além de Everton, foram seus irmãos: Walter, Mauro, Olavo, Olivier, Iaponam ( pai de Cláudio e outros ), Euzébia e Nazaré. Segundo Iaris Cortez, filha de Everton e Genura, Iaponira era a filha caçula. Todas as três filhas de Joaquim Pegado Dantas Cortez/Guilhermina, tinham nomes compostos, como Maria Euzébia, Maria Nazaré e Maria Iaponira.
Na foto de 2002, no convento de Emaús, em Parnamirim, vê-se Maria José Cortês Caldas, sua filha Galganny com filha Isabella, nos braços, e Irmã Maria Iaponira Dantas Cortês.Foto gentilmente enviada por Galganny, nossa sobrinha.

Foto do casamento Eusébia Dantas Cortês- Zebinha, uma das irmãs de Iaponira. A maioria das moças são filhos de Everton Dantas Cortez e Alfredo Pegado Cortez.
À esquerda, Joaquim Pegado Cortez, conhecido como Tio Quincó, patriarca da família. Atrás do monsenhor Paulo Herôncio de Melo, vê-se Genura Ramalho Cortez, esposa de Everton, dentre outros familiares. Arquivo do blogue.
Dados extraídos do inventário de Maria Senhorinha Dantas Cortez-Marica Pegado, cujo inventariante foi Alfredo Dantas Pegado Cortez, pelo pesquisador Rodrigo Cortez.
- Joaquim Pegado Dantas Cortez (30/10/1881 – 03/05/1963) casado em 27/02/1908 com Guilhermina Dantas Cortez (xx/xx/xxxx - 13/12/1973),(sitio Balas, Currais Novos)
- Ewerton Dantas Cortez cc Genura Ramalho Cortez
- Maria Euzebia Cortez de Souza cc Antônio Elias de Souza
- Olivier Dantas Cortez cc Izaura Morais Cortez
- Walter Dantas Cortez cc Marly de Melo Cortez
- Olavo Dantas Cortez cc Maria Anísia Gomes Cortez
- Mauro Dantas Cortez (irmão Ricardo)
- Maria Nazaré Cortez
- Maria Iaponira Dantas Cortez (irmã Maria Ambrosina)
- Iaponam Dantas Cortez cc Almira Tinoco Dantas
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
A vida é uma viagem.
Você já leu isso antes: a vida é uma viagem. Mas não é sobre um chavão que eu gostaria de conversar. Viver, de fato, é um contínuo caminhar e desvendar paisagens. Mas o ponto não é exatamente o caminhar e sim como caminhamos, o que inclui a maneira como construímos internamente caminhos e cenários a partir de um olhar e de um propósito.
A vida pode ser uma viagem, mas as cores, a profundidade, os brilhos e contrastes dizem respeito ao modo como nos movemos sobre a Terra.
É possível considerar nossas viagens de uma perspectiva espiritual. O filósofo e teólogo hesicasta Jean-Yves Leloup aponta-nos com precisão: existe uma maneira de caminhar que nos faz turistas, outra que nos leva a ser andarilhos e outra ainda que nos torna peregrinos. Talvez seria isso uma espécie de espiral evolucionista do caminhante, mas não se trata de contrapor uma maneira à outra.
O turista, diz Leloup, é aquele que caminha sobre a crosta do planeta. Permanece na avidez por quilometragem, no consumo de prazeres e no contato superficial com paisagens, situações e pessoas. O andarilho aprofunda a experiência do caminhar e busca a seiva, almeja entrar no movimento do universo e tornar-se pleno com os odores da natureza, as mensagens da vida. Caminhar como peregrino exige um refinamento maior, na intenção de se estar próximo do sopro, da essência que está na seiva e é o sustentáculo último da seiva, da árvore, da crosta.
Um estágio pode levar ao outro para, no final, percebermos a realidade de que caminhamos sobre uma terra que se torna sagrada ou profana a partir da qualidade que imprimimos ao nosso caminhar. A viagem é plena quando nos leva para dentro, quando desvela nossas paisagens internas, quando nos coloca diante da Presença.
É ainda Leloup quem nos recorda que a sabedoria de Lao Tsé pode ser aplicada aos nossos ímpetos viajeiros. Segundo o sábio do Tao, podemos dar a volta ao mundo sem dar um único passo para fora de nós. Ou seja, podemos levar conosco o mesmo olhar, as mesmas projeções, os mesmos preconceitos e, assim, nada vermos.
Se isso acontece, certamente, falta-nos a inspiração de Carlos Castañeda para a viagem contínua da vida: “Não importa o caminho, importa se esse caminho tem um coração”. Falta-nos ainda a abertura surgerida pelo Eclesiastes: “Vai onde o teu coração te leva”. O olhar e o propósito devem corresponder ao nosso coração, nossa aspiração mais profunda, não a padrões aprisionantes. Caminhar sem coração é seguir um caminho que nos é imposto, do qual não conseguimos desfrutar.
Talvez por isso, quem sabe, deixo-me banhar pela suavidade dessas reflexões, enquanto aguardo o embarque para Roma, no aeroporto de Guarulhos, quando o pragmatismo e o próprio instinto poderiam angustiar-me neste momento em que a terra treme na Itália central - onde peregrinarei, solitário, pelos caminhos de Francisco de Assis -, hotéis desabam e avalanches soterram turistas.
Meu coração diz: vá! Não há lógica: vá! Só há esperança: vou e espero voltar.
Instituição faz digitalização de arquivos da Arquidiocese de Natal
Instituição faz digitalização de arquivos da Arquidiocese de Natal
A Arquidiocese de Natal e a instituição americana Family Search Internacional firmaram uma parceria para a digitalização dos arquivos da cúria metropolitana, bem como das paróquias que compõem o território arquidiocesano. Esse projeto, além de garantir a preservação das informações contidas nos documentos, permitirá o acesso a dados relevantes para a pesquisa de história das famílias.
A parceria foi firmada em novembro do ano passado e o trabalho de digitalização já está sendo realizado. Nestes primeiros meses, um funcionário da Family Search montou os equipamentos, na sala do arquivo arquidiocesano, situada no subsolo da Catedral Metropolitana, onde faz o trabalho de digitalização de documentos da Igreja. Depois, ele seguirá para as paróquias do interior do Estado.
O processo
Quando registros são destruídos, perdem-se para sempre dados importantes acerca do passado. Por outro lado, os frágeis documentos históricos sofrem constante deterioração devido ao uso frequente. Em compensação, registros preservados digitalmente ou em microfilme podem ser utilizados repetidas vezes e reproduzidos conforme a necessidade, enquanto os documentos originais permanecem intactos, íntegros e em bom estado para as gerações futuras.
Em colaboração com instituições que criam e guardam registros, o Family Search começou a microfilmar e armazenar registros em 1938. Os projetos de digitalização começaram em 1998. De 1938 até hoje, a instituição microfilmou em mais de 110 países. Ele fornece às instituições mantenedoras dos documentos originais uma cópia de seus registros no formato em que foram adquiridos. Além disso, os microfilmes e imagens digitais que armazena servem de cópias de segurança de arquivos gerais de todo o mundo, constituindo-se numa proteção essencial caso ocorram danos ou perdas.
A Arquidiocese de Natal já recebeu esse projeto no período em que os arquivos eram microfilmados. Nesta nova modalidade, que utiliza a tecnologia digital, os livros que antes não foram digitalizados, agora passarão por esse processo. O processo se utiliza de um mecanismo de captura de imagens, através de uma câmera fotográfica de alta resolução. As imagens geradas passam por um programa de computador, que no processo seguinte, as armazena em um HD. O processo é feito por um especialista em geração de imagem e, no território arquidiocesano, quem está conduzindo este trabalho é Jorge Silva, da Family Search . Segundo Jorge, desde o início da parceria até o momento, já foram feitas mais de cinco mil imagens dos livros arquidiocesanos. O atual processo de digitalização contempla livros de batismo, casamento, óbitos e o acervo do Jornal A Ordem.
MAIS INFORMAÇÕES:
. Cacilda Medeiros – assessoria de comunicação da Arquidiocese de Natal – (84) 3615-2800/2801 / 99968-6507
. Luiza Gualberto – assessoria de comunicação da Arquidiocese de Natal – (84) 3615-2800/2801 / 99936-3663
P.S. Em anexo, uma foto de Jorge Silva, atuando no processo de digitalização, na sala do arquivo da Arquidiocese
Área de anexos
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Uma notícia de 1828, meu trisavô e meu tetravô . Em 1828, na Praça do Recife, um trapaceiro aplica um golpe contra meu tetravô João Martins Ferreira, morador na Ilha de Manoel Gonçalves.
Fonte: putegi.blogspot.com -
João Felipe Trindade, genealogista.
sábado, 26 de novembro de 2016
[AssessoRN.com ] El Comandante cubano deixa esta vida e passa para a história
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Morreu Fidel Castro, histórico líder da revolução cubana
O líder histórico da Revolução cubana, Fidel Castro, faleceu na noite desta sexta-feira (25), aos 90 anos. A triste notícia foi anunciada pelo presidente Raúl Castro, por meio de um comunicado na televisão, em rede nacional. O chefe de Estado explicou que o corpo de Fidel será cremado atendendo a seu próprio pedido. [Portal Vermelho > Leia mais]
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Postado por João Bosco de Araujo no AssessoRN.com em 11/26/2016 11:48:00 AM
domingo, 20 de novembro de 2016
sábado, 12 de novembro de 2016
O DIA AZIAGO DA SUPERSTIÇÃO SERTANEJA
Por José Romero Araújo Cardoso
(Conto laureado com Menção Honrosa no Resultado final do Terceiro Concurso de Crônicas, Contos e Poesias "João Batista Cascudo Rodrigues" - Versão 2016 - Promoção: Academia Mossoroense de Letras – AMOL).
Pedro macambira acordou sobressaltado na alta madrugada sertaneja, despertado com o canto insistente e fora de hora do galo magricela que imperava célere no terreiro de sua tosca e humilde casinha de taipa, construída com material encontrado por ali mesmo, naqueles carrascais perdidos no meio da caatinga desolada e cinzenta devido à ação implacável da seca inclemente que há mais de dois anos castigava o semiárido, a qual, para infelicidade dos povos interioranos, tinha seus efeitos repercutidos em áreas antes relativamente livres das estiagens com as quais acostumara-se a enfrentar nesses cinquenta e dois anos de vida sofrida, quase dez ao lado da família que formara.
Aves noturnas contribuíram para fustigar mau presságio em seu imaginário sertanejo, pois bem no alto da tosca chaminé de onde saia a fumaça preta exalada do fogão à lenha, mantido aceso em fogo brando, pousou desafiante rasga-mortalha, a qual passou a emitir sons estridentes que imemorialmente causam arrepios no supersticioso povo do sertão.
Na tarde do domingo, dia primeiro de agosto, assombrara-se com o lamento contínuo de uma acauã que parecia fitar os raios solares, como a invocar lhes a crestar ainda mais as veredas adustas do sertão calcinado pela seca que a cada dia se tornava mais insuportável.
Um engordurado calendário pendurado na parede de barro, recebido como brinde do dono da única farmácia da cidade, quando fora no início do ano comprar remédios para tentar curar as bicheiras dos meninos, estava preso por um prego enferrujado. Pedro havia assinalado em forma de circunferência o dia dois de agosto, primeira segunda-feira do mês considerado no sertão como de desgosto.
É um dia encarado como aziago na tradição do sertão, fruto de experiências passadas de geração a geração, com o qual, segundo os antepassados, precisa-se ter cuidado, respeitá-lo quanto ao que diziam os antigos, no que se refere aos seus significados e mistérios. No linguajar matuto, dia aziago tornou-se dias e águas, fomentando enigmas e divagações metafísicas.
Água suja e salobra, recolhida a duras penas de uma cacimba quase seca, localizada a dois quilômetros de sua humilde tapera, foi despejada de um balde em uma bacia plástica que conseguiu comprar na feira da cidade. Molhou o rosto e foi acordar Maria de Eulália e os dois meninos – Lucas, de cinco anos e Raimundo, de sete.
Precisava estar bem cedo no meio da caatinga para tentar retirar a macambira que serviria para ganhar alguns trocados, vendendo-a para que filhos de pessoas mais afortunadas se divertissem fazendo gaiolas para manter cativos inocentes e desditados cabeças-vermelhas, assuns-pretos, pomba-rolas e outras aves encontradas a duras penas na região.
A fome atroz passada em secas passadas fê-lo experimentar farinha de mucunã a fim de mitigar a carência nutricional. Foi uma experiência terrível, pois a química venenosa contida na semente quase o levara a óbito. Ficou a certeza que nunca mais repetiria a dose e nem tampouco ofereceria mucunã para sua família provar. Essa promessa foi feita aos pés da imagem do Senhor São José quando, em leva de retirantes, passavam em uma cidade perdida nas quebradas do sertão.
Ninguém conhecia naquelas bandas Pedro Bento de Sousa, seu nome de batismo, mas Pedro macambira, sim, em razão que foi a esse ofício, retirar e comercializar macambira, ao qual se dedicou com afinco desde quando chegara por ali na tentativa de fixar-se com a família na condição de moradores.
Lenha para fazer carvão era algo fora de cogitação. O patrão havia proibido o corte de qualquer árvore. Esse era um privilégio dele. A venda da madeira era feita na cidade, pois, construtores de casas e a única padaria que existia, compravam parte da vegetação retirada da fazenda. Destinava, ainda, fração do material lenhoso para consertos de cercas.
Como o tempo mudou, pensou Pedro macambira. Há menos de dez anos o terreiro estava cheio de passarinhos, de todas as espécies. Hoje, encontrarmos um de uma única espécie é um trabalho duríssimo. O homem não vem respeitando a natureza, por isso estamos vivendo nessa solidão, sem o canto dos pássaros para nos alegrar.
Passando o café em um coador desgastado, adoçando-o com rapadura preta, Maria de Eulália acompanhou discretamente as reflexões silenciosas do esposo, convicta, não precisava perguntar, que giravam em torno do dia considerado um entre tantos de maior respeito dentro das superstições contidas nas tradições sertanejas.
Como fazer para retirar a macambira sem usar algum artefato de metal? Como manter firme os ensinamentos dos meus pais e avós se tenho que garantir alguns trocados para o sustento da minha família durante a semana? Indagava Pedro macambira a si mesmo. A agricultura não prospera por causa da seca. Não temos condições de mandar cavar um poço e termos água para abastecer a casa, irrigar a plantação e saciar nossa sede e a dos animais. Vivemos de favores na terra dos outros, o patrão só vem aqui em casa quando é para mandar fazer alguma coisa para ele, não nos ajuda, vive como um rei, onde não falta nada nas terras que planta e cria gado, domínios extensos que fazem lembrar as histórias medievais que os cantadores de outrora difundiam no sertão carente de informações. Para o pobre só resta lutar para sobreviver e pedir a Deus para mandar melhores dias, por que aqui na terra a ganância fala mais alto e não há solidariedade de forma alguma, a fomentar a união entre as pessoas.
Por falar em patrão, o barulho de um possante motor de caminhonete foi notado, vindo na direção da casinha de taipa da sofrida e morigerada família sertaneja. Era o senhor de baraço e cutelo, dono das terras e da vida, vindo ordenar que um serviço fosse feito com urgência até o fim do dia.
Uma árvore frondosa do semiárido, uma cajazeira, havia crescido em direção a uma trifásica de alta tensão que trazia energia de Paulo Afonso para iluminar a cidade, pois luz elétrica ainda não tinha beneficiado boa parte da zona rural. Quando os galhos se tangenciavam com os fios causavam descargas descomunais que estavam pondo em risco as vidas dos valiosos animais dos rebanhos do dono das terras do sem fim onde Pedro Macambira e sua família eram moradores.
Planta de crescimento rápido, atingindo mais de vinte metros de altura, a cajazeira possui raízes profundas que facilitam a absorção de água pela planta. Tubérculo geralmente existente nas extremidades de suas raízes era utilizado, quando das grandes secas, para o fabrico da farinha. O cosmopolitismo tropical é uma das características de sua ocorrência. Na Amazônia é conhecida por Taperebá, enquanto nos Estados sulinos conhecem-na por Cajámirim.
Maria de Eulália sentiu um frio na espinha quando a voz gutural do homem mau encarado à sua frente ditou as ordens de forma irresoluta, pois, para cortar os galhos ressequidos, tenebrosos e desafiadores da cajazeira, seria necessário fazer uso de algum artefato metálico, como uma foice.
Lucas e Raimundo, sem entender direito o que se passava, notaram que uma lágrima rolava da face sofrida da genitora, enquanto Pedro macambira, empalidecido e quase sem voz, retrucava ao patrão que o dias e águas era uma data temida e respeitada pelo seu povo. Seria uma blasfêmia usar qualquer instrumento de metal naquele dia especial de reserva milenar naquela superstição presente na tradição sertaneja.
Acostumado a ditar ordens e ser obedecido prontamente, o patrão quase teve um ataque de loucura diante das ponderações do casal à sua frente. Berrou que respeitassem sua barba grisalha e que Pedro fosse cumprir o que havia determinado, sob pena de serem expulsos daquela terra o mais rápido possível.
Lembranças de aflições inenarráveis vieram-lhes à mente, pois vagavam feito almas penadas pelas quebradas do sertão, buscando criar a família que Deus lhes deu. A fixação como moradores foi muito difícil. O patrão não queria consentir que gente vinda de longe ocupasse suas terras, mesmo sendo um inexpressivo pedaço de chão.
Batendo com força a porta do veículo, o arrogante senhor absoluto, expressão maior da sociedade sertaneja agropastoril arcaica e patriarcal, definiu sua intransigência com relação ao cumprimento da ordem dada ao humilde roceiro. A tradição não interessava, mas tão somente a neutralização da ameaça que punha em perigo os seus rebanhos.
Definida a ordem de tarefas, Pedro priorizou a luta para encher a barriga da família. O patrão havia dito que esperava até o fim do dia, então que esperasse. Enfiou o surrado chapéu de couro na cabeça, enrolou a funda, dando uma volta em sua cintura, encheu o cantil com água suja e barrenta e dentro do alforje colocou três pedaços de rapadura preta para minimizar a fome, tomando o rumo de um serrote arisco e cheio de percalços, onde sabia existir macambira em abundância.
No caminho notou que os efeitos da seca e da ação do homem estavam se concretizando de forma agônica. Os animais com os quais acostumara-se a caçar em suas caminhadas, principalmente quando para extrair macambira, não eram encontrados com facilidade. Quando conseguia visualizar um tejo ou um mocó, estes eram tão rápidos que ficavam logo distante da sua pontaria.
Arma de fogo era um privilégio que não possuía. Não tinha dinheiro para comprar pólvora e chumbo, não obstante saber perfeitamente como fabricar artesanalmente uma espingarda bate-bucha.
Ao chegar no serrote, notou a abundância de macambira, embora o problema para retirá-la estivesse no respeito à tradição sertaneja que diz, com relação ao dia aziago, não ser recomendável o uso de instrumentos metálicos.
A primeira tentativa de retirada da macambira sem uso de instrumento de metal revelou-se sofrível. O espinhos da macambira logo penetraram na áspera pele do sertanejo. A macambira, escolhendo caprichosamente fendas entre pedras para nascer e se desenvolver, mostrou-se desafiadora ao senso comum.
Arrancá-las com as mãos nuas tornou-se um dos maiores suplícios já enfrentado pelo heroico filho das caatingas. A busca por melhor qualidade de vida para sua família, no entanto, falava mais alto e a cada tentativa aumentava-lhe a nobreza de espírito a ponto de fazê-lo esquecer as dores lascinantes, resultando em relativo sucesso que garantiu-lhe certa quantidade de talos da bromeliácea.
Sangrando bastante as mãos e os pés, Pedro desceu o serrote com os seus troféus, os quais renderiam uns bons trocados que permitiriam a compra de um pouco de querosene e um tanto de mantimento no barracão mantido pelo patrão na sede da fazenda.
Trazia consigo a certeza que a tradição passada de pai para filho não tinha sido quebrada. Não havia utilizado instrumento de metal no dias e águas para retirar a macambira que serviria para mitigar um pouco dos infortúnios de sua existência e a da sua família marcadas pelas secas e pelas humilhações terrenas.
Sedento e faminto, colocou um taco de rapadura na boca e passou a mastigá-la bem devagar, tomando alguns goles da água suja e barrenta a fim de facilitar a degustação do doce sertanejo.
Passavam das três da tarde quando Pedro chegou em sua moradia. Maria de Eulália, aflita, com Lucas e Raimundo segurando-lhes a barra da saia, recebeu o marido com ar espavorido. O dono da terra, na ausência do esposo, tinha vindo reiterar a ordem referente à urgência na poda da cajazeira.
Disse-lhe que o patrão tinha gritado e ameaçado, jurando expulsar a família caso o serviço de corte da árvore não fosse feito até as quatro horas da tarde. Não queria mais perder nenhum boi gir ou zebu ou um caprino boer por causa das descargas da alta tensão quando os galhos da cajazeiras batiam nos fios. O serviço, tinha esbravejado o insensível homem, conforme Maria de Eulália relatava a Pedro, tinha que ser feito por ele.
Esmorecido e cansado, Pedro sentou-se num banquinho de aroeira e pôs-se a meditar sobre a situação, sendo despertado pela razão, pois o tempo corria e até as quatro horas tinha que cortar os galhos da sinistra cajazeira, sob pena de perder o abrigo temporário conseguido com muita luta.
No velho baú estava guardada uma foice que levava em seus deslocamentos pelas veredas da terra do sol. Fitou-a durante alguns minutos e retirou-se do local onde a guardara, segurando firme o cabo de imburana, entrando em uma espécie de transe emocional, condicionado pelas bases morais de suas tradições e crenças.
Despediu-se de Maria de Eulália e dos meninos e foi cumprir sua sina, seu destino sempre marcado por tragédias inenarráveis e sofrimentos atrozes que poderiam ser evitados, caso a responsabilidade humana fluísse harmonicamente.
Deslocou-se até o perigo representado pela cajazeira ameaçadora que tangenciava seus galhos com os fios da alta tensão. Ventava bastante e um leve toque de algumas das partes do vegetal na eletricidade violenta fez com que fagulhas se espalhassem pelo chão, indicando o iminente.
Não sentia medo, pois não era homem para tremer nas bases, mas aquilo tudo representava uma afronta ao que seu velho pai sempre lhe dizia, para respeitar a primeira segunda-feira do mês de agosto, o dia aziago, quando trabalhar com instrumentos de metal poderia ser fatal.
Pensativo, ficou algum tempo perguntando a si mesmo de onde vinha a tradição de respeitar a primeira segunda-feira do mês de agosto. De quem teria sido a ideia? O pai e o avô tinham manias estranhas, bem como a mãe e a avó. Os antepassados ficavam no terreiro, principalmente em dias de sexta-feira, esperando aparecer a primeira estrela, enquanto as matriarcas não ousavam varrer a casa passando o lixo pela porta da frente. De que povo herdaram isso? Refletia Pedro de forma enigmática. Embora analfabeto, era muito inteligente.
Parou de imaginar as coisas e começou a buscar dentro de si mesmo a coragem necessária para concretizar o desafio às suas tradições, invocando toda fé possível e imaginável para que não caísse em emboscadas do destino, como bem apregoavam os antigos.
Subiu na frondosa árvore e começou a cortar os primeiros galhos. Algo de sobrenatural aconteceu em seguida, pois quando tentava cortar partes menos ameaçadoras, a foice fora arremessada longe, como se uma mão invisível estivesse a protegê-lo, adivinhando que uma tragédia estava sendo anunciada.
Escorado no tronco da cajazeira, Pedro chorou copiosamente, imaginando que aquilo, na verdade, seria a intervenção do seu pai falecido há décadas, querendo poupá-lo de algo terrível.
Despertado para a realidade, a qual envolvia as condições de vida de sua família, Pedro desceu do pé de cajazeira, recolheu a foice misteriosamente arremessada no chão crestado e novamente voltou ao desafio.
Nova ventania e os galhos voltaram a tocar a cajazeira com Pedro em cima da árvore. Fagulhas cobriram-lhe por inteiro. Não sentiu medo, mas que era algo tenebroso, isso era, com absoluta certeza.
À proporção que Pedro escalava a cajazeira, o perigo aumentava exponencialmente. Partes fumegantes começavam a deixá-lo com náuseas, mas não havia condições de retornar, tudo estava traçado, tudo estava selado.
O galho mais sensível foi alcançado. Pedro começou o corte deste, concluindo-o heroicamente, embora tenha vergado sobre a alta tensão, fulminando-o instantaneamente.
Chegava ao fim a existência do bravo sertanejo que, instigado pela ganancia e falta de solidariedade, fora obrigado a desafiar o rigor instituído pela tradição no que diz respeito ao dia consagrado aos mistérios que envolvem uma construção coletiva realizada em bases evocativas que remontam ao milenarismo das crenças dos antigos colonizadores.
Conto laureado com Menção Honrosa no Resultado final do Terceiro Concurso de Crônicas, Contos e Poesias "João Batista Cascudo Rodrigues" - Versão 2016 - Promoção: Academia Mossoroense de Letras – AMOL
José Romero Araújo Cardoso (Mini Currículo):
Geógrafo (UFPB). Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB-1996) e em Organização de Arquivos (UFPB - 1997). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (2002). Atualmente é professor adjunto IV do Departamento de Geografia/DGE da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais/FAFIC da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/UERN. Tem experiência na área de Geografia Humana, com ênfase à Geografia Agrária, atuando principalmente nos seguintes temas: ambientalismo, nordeste, temas regionais. Espeleologia é tema presente em pesquisas. Escritor e articulista cultural. Escreve para diversos jornais, sites e blogs. Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP). Membro da Associação Mossoroense de Escritores (ASCRIM).
Endereço residencial:
Rua Raimundo Guilherme, 117 – Quadra 34 – Lote 32 – Conjunto Vingt Rosado – Mossoró – RN – CEP: 59.626-630 – Fones: (84) 9-8738-0646 – (84) 9-9702-3596 – E-mail:romero.cardoso@gmail.co m
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