quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Marica Pegado,uma mulher culta e informada.


ESTALAGEM DE PESSOAS E IMPRESSOS: SÍTIO SÃO LUIZ, CASA DE DONA MARIA SENHORINHA (VILA DE CURRAIS NOVOS/RN - 1870)

Eva Cristini Arruda Câmara Barros/Universidade Federal do Rio Grande do Norte[1]

Eixo temático 1 - Circulação de idéias, discursos e modelos educativos

Introdução

As idéias circulam, por sua vez, também os impressos. Foi seguindo essa trajetória contínua de uma circularidade cultural, de um ir e vir sucessivo de valores e preceitos que, em 1870, um exemplar do livro Código do Bom Tom ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIXº Século, escrito pelo padre português José Inácio Roquette, chegou à casa de D. Maria Senhorinha, no sítio São Luiz, localizado nos arredores da Vila de Currais Novos, em uma região do estado do Rio Grande do Norte conhecida como Seridó[2].
Pode-se dizer que a presença de um impresso como o Bom Tom, meio difusor de uma cultura escrita, em uma sociedade essencialmente rústica, agrária e patriarcal, a qual fundava grande parte de seus ensinamentos sob os traços da oralidade, é um fato que instiga curiosidade. Por esse motivo, a presente pesquisa busca compreender como um manual preconizador de cortesia, bons modos e civilidade, que traduzia um estilo de vida europeu do século XIX, veio povoar o cotidiano e o lar de uma seridoense, D. Maria Senhorinha, constituindo-se, anos depois, em um dos bens legados à sua família, a família Dantas Pegado Cortez.
Para conseguir alcançar tal objetivo, foram abordados referenciais teóricos que versam sobre hospitalidade, entendida como uma troca de favores e valores entre seres humanos em tempos e espaços planejados; sobre impresso, concebido como algo constitutivo de sentido e anunciador de uma classificação e distribuição de discursos; bem como sobre representações, definidas como práticas culturais que apreendem e organizam o real.
Por conseguinte, para ampliar e patentear a leitura desses referenciais, foram utilizados algumas publicações regionalistas acerca do Seridó antigo e uma descrição contendo o percurso de viajantes, comboieiros, pedestres e tropeiros, feito por meio de estradas carroçáveis, entre Currais Novos e Natal, da segunda metade dos anos de 1800 até 1927.
Os resultados alcançados apontam que a residência de D. Maria Senhorinha, por ter funcionado como uma estalagem situada no caminho entre os longínquos horizontes de uma área rural e a capital do estado, Natal, acabou por fazer parte do roteiro dos que ali passavam, logrando reconhecimento e se tornando em um local apropriado às amizades, conversação, amabilidades, ou seja, um espaço receptivo à sociabilidade. Dessa forma, tirando proveito desse tráfego, inclusive negociando a troca de impressos, essa mulher se tornou em uma intercessora da cultura letrada e há até indícios de que praticara os ensinamentos aprendidos no manual Bom Tom, portando-se com modos corteses e civilizados no seu hospedar.
Em síntese, a partir desse estudo, foi possível consubstanciar a significativa importância da cultura da hospitalidade para as sociedades tradicionais. Para o povo norte-rio-grandense, principalmente no que concerne ao seridoense, a acolhida afetuosa, os bons gestos de recepção, o pernoite bem acomodado e seguro, o entretenimento, as iguarias, a existência de um lugar destinado à oração, tudo isso culminou favorecendo para que as estalagens assumissem o papel de ambientes habitados pela troca de favores e valores. Aliás, foi desse modo que D. Maria Senhorinha, em sua casa grande, ganhou notoriedade. Sua morte, em 1927, mereceu registro em jornal.

1. Estradas carroçáveis abrindo caminhos para uma circularidade cultural

No plano de uma escrita tida como regionalista, além de autores que se dedicaram a uma história preponderantemente autobiográfica, recaindo na complicada postura de cindir criatura e criação, também é possível encontrar escritores que conseguiram, de forma real e equilibrada, pôr em letras a vida do povo do Seridó.
Desse modo, o caso de certos norte-rio-grandenses que souberam se envolver com a escrita da cultura seridoense de uma época parece até se constituir em um legado, em um patrimônio moral. Imbuídos e reconhecidos como legítimos tradutores dessa cultura, esses sujeitos se revelaram hábeis na função de infundir uma imagem de mundo rural, mundo esse que teceram cuidadosamente como algo precioso. Através de seus registros, convidam-nos a adentrar nessa trama, cuja urdidura é composta de um amálgama que inspira unidade e configura sentido próprio a esse estilo de vida. Confortados nessa tarefa e plenamente à vontade, esses escritores quase afirmam que a literatura clássica, por não estar habilitada nesse ofício, não sabe encontrar palavras para a cultura que dizem tanto cuidar. Por esse motivo, arvoram-se na condição de especialistas nessa arte, considerando tal literatura incapaz de converter em palavras o que primeiro deve ser captado em sentimento. Praticamente dão a entender que os feitores de vocábulos por se apegarem a expressões generalistas, estenderem conceitos e ficarem presos à semântica das palavras, tornando comum o que é singular, dissolvem preciosas particularidades, e, conseqüentemente, não são os mais indicados para dissertarem sobre uma cultura que não sentem.
 Para melhor compreender o trajeto de viajantes, comboieiros, pedestres e tropeiros entre Currais Novos e Natal, da segunda metade dos anos de 1800 até 1927, percurso esse onde a casa de D. Maria Senhorinha tornou-se ponto de passagem, é necessária, pois, uma apresentação de importantes aspectos presentes nas obras desses norte-rio-grandenses.
Partindo desse viés, as revelações passam a ser surpreendentes. Aliás, por intermédio delas, é descortinado um modo de vida que, embora de natureza pacata, escapa à mesmice, ao previsível, mostrando-se notável. Verifica-se, portanto, que existem certas singularidades para cada época e lugar ou para cada momento diverso no tempo e no espaço. Assim, entre uma leitura e outra, torna-se perceptível uma realidade peculiar, a realidade do seridoense que pôde presenciar, em seu cotidiano, as singularidades de algumas espécies de animais como cavalo, boi, burro mulo. Estas, todavia, se citadas a critério de ilustrar a diversidade de bichos desse porte, próprios da região, somente se tornam relevantes quando comprovam os diferentes usos que o Seridó tinha por costume em relação a esses animais.
Segundo Alves (1985), o carro de boi era empregado para trajetos curtos, realizando apenas o transporte de mercadorias entre fazendas próximas ou entre os pequenos vilarejos que surgiam. No que diz respeito aos cavalos, tem-se conhecimento de que podiam, embora não regularmente, ser usados para grandes percursos, visto que foi através deles que os sesmeiros povoaram os sertões. Quanto às tropas de burros mulos, utilizadas frequëntemente para distâncias maiores, sabe-se que eram organizadas e açoitadas para andarem atrás umas das outras, sendo diferentes das tropas de cavalos, que eram tangidas em manadas.
O deslocar-se no Seridó, sob a cadência dos passos desses animais, podia ser entre fazendas, entre cidades ou vilarejos próximos, entre regiões diferentes ou ainda entre o lugar de morada até à capital do estado, Natal.
Essas penosas e, muitas vezes, demoradas jornadas sob sol causticante, pelas brenhas, rochedos, enfrentando matagais, safando-se em pequenas aberturas chamadas de estradas carroçáveis, fizeram com que alguns indivíduos se aventurassem de um lugar a outro, movidos pelas necessidades de troca, mercado, sobrevivência.
Nelas, a posição social desses indivíduos se mostrava profundamente díspar. Os interesses eram divergentes, uma vez que cada qual estava preso às suas funções bem diferenciadas e delimitadas, contudo a saga era a mesma: desbravar-se, desvencilhar-se.
Para o fazendeiro, valia o esforço para fazer dinheiro, negociar, ver sua mercadoria dar preço. Para o matuto, esse era um meio de vida, um ofício, o momento em que exibia sua experiência para aboiar tropas de animais. A propósito, sobre esta personagem, é relevante que se faça um sucinto esclarecimento.
De acordo com o que pôde ser extraído das obras dos escritores aqui tomados como referência, foi possível depreender que a literatura corrente ainda não consegue dar uma real definição do matuto e, quando tenta, procede de modo simplificado e preconceituoso. Por essa literatura, o papel social deste parece ser contextualizado apenas na ação do tanger, na rudeza, na modéstia, na condição de pobre, parco, ingênuo. Todavia, é importante que esse sujeito também seja visto como uma pessoa que se inseriu no mundo do comércio, dos serviços, alguém que deu sua contribuição para os liames da arte da comunicação, que abriu caminhos, um desbravador.
            Portanto, a partir desse último argumento, considerando o ir e vir do matuto e daqueles que, junto com ele, colaboraram na circulação de produtos e idéias, torna-se patente dizer que as viagens outrora empreendidas, além de terem apresentado áreas circunvizinhas como destino, também possuíram outros roteiros, ora servindo-se da mais rústica das pontes entre uma região e outra, ora vencendo as estradas entre o interior e o litoral.
Movidos por múltiplas forças, econômicas, sociais ou culturais, esses deslocamentos interromperam, sorrateiramente, o isolamento do mais recôndito dos interiores, induzindo-o a comercializar, realizar a troca, entrar em contato, comunicar-se.

2. A estalagem: lócus de abrigo e circularidade cultural

Situada nas imediações do alto onde finda a Serra do Doutor, a estalagem do sítio São Luiz tem os prenúncios de sua história marcados pela origem da Família Dantas Pegado Cortez, cujo patriarca tinha por nome Manuel Pegado Cortez. Vindo de Natal, esse homem, quando chegou ao Seridó, uniu-se a outros empreendedores e comprou uma data de terra, a Pitombeira, nos arredores da Vila de Currais Novos. Desse negócio, a parte que lhe coube recebeu a denominação de sítio São Luiz. Depois, passado algum tempo, procurando estabilizar-se nessa região, em 1866, casou com D. Maria Senhorinha Dantas, que após o casamento passou a se chamar Maria Senhorinha Dantas Pegado Cortez, ficando popularmente conhecida, anos mais tarde, com sua viuvez, como D. Marica Pegado.  
                  Todos esses fatos propiciaram o surgimento da casa grande desses dois seridoenses. Esta, embora tenha começado a funcionar como estalagem pouco depois de meados do século XIX, angariou maior freqüência nessa prática cultural durante o período da viuvez de D. Maria Senhorinha, já nos anos de 1890 a 1927. Nessas tantas décadas, em sua casa grande de construção imponente, em estilo colonial, com suas grossas paredes e suas várias e alinhadas janelas, quase parecendo uma fortaleza, muitas histórias foram contadas, cenas diversas foram vividas nos corredores de um lugar próprio à recepção de pessoas, produtos e impressos.
                  Sobre casas grandes tais como a de São Luiz, alguns autores até descrevem determinadas características como se vê em “[...] cômodos espaçosos porque o maior espaço é de ontem e também para que as redes não ficassem entipoiadas.” (FARIA, 2006, p.23).
                  Na estalagem da senhora Pegado, é comprovado esse aspecto do “maior espaço”, uma vez que hóspedes, constantemente, por lá passavam. Conforme o que foi pesquisado nesse estudo, partindo do que dizem as obras regionalistas, é possível dizer que, nessa residência, havia um grande galpão que servia de guarida para os tropeiros. As autoridades e fazendeiros dormiam na sala, que também era extensa. A propósito, as melhores redes eram reservadas a esses sujeitos.
                        Essa particularidade, na verdade, traduz uma certa ritualidade envolvendo a prática cultural do hospedar, cuja preocupação é o bem estar dos acolhidos, principalmente quando estes condizem a pessoas ilustres. Nesse contexto, o vocábulo hóspede, derivado da palavra hostes que, primitivamente, significava inimigo, adquire também a conotação de pessoa que está sob os cuidados de outra, em uma proteção sagrada do lar. Aliás, é aí que figura a idéia de hospitalidade, assunto que, nos dias de hoje, vem sendo largamente discutido, embora seja algo que remonte às civilizações antigas. Sobre suas origens, pode-se afirmar que:
                                                                      
Não há dúvidas de que o conhecimento das raízes históricas da hospitalidade pode contribuir para compreender como os costumes das diferentes épocas fundamentavam a cultura social local. Vale assinalar que a palavra hospitalidade tal como ela é usada hoje teria aparecido pela primeira vez na Europa, provavelmente no início do século XIII, calcada na palavra latina hospitalitas, ela mesma derivada de hospitalis. Ela designava a hospedagem gratuita e a atitude caridosa oferecida aos indigentes e dos viajantes acolhidos nos conventos, hospícios e hospitais. (GRINOVER, 2002, p.26-27)

Assim, a hospitalidade ora tratada não é aquela do consenso geral, definida como mero negócio, mas sim a que supera esses estreitos limites, buscando suas bases na relação entre anfitriões e hóspedes de outrora.
Essa relação, por sua vez, envolve uma troca de favores. O anfitrião eleva seu prestígio social ao passo que o hóspede usufrui os deleites de uma boa acolhida.
Sob os fundamentos da dádiva, essa acolhida se constitui em um processo múltiplo que envolve as ações de dar, receber e retribuir. Nesse processo, o dono da casa oferece cordialidade. Como resposta, o hóspede a recebe e, de alguma forma, nas entrelinhas dessa complexa associação, ele adquire uma obrigação de retribuir o favor ou o regalo dado.
Entre indivíduos, tudo isso parece se assemelhar a um pacto religioso. Nesse sentido, dá para se observar que:

[...] há uma série de direitos e deveres de consumir e de retribuir, correspondendo a direitos e deveres de dar e de receber. Mas essa mistura íntima de direitos e deveres simétricos e contrários deixa de parecer contraditória se pensarmos que há, antes de tudo, mistura de vínculos espirituais entre as coisas, que de certo modo são alma, e os indivíduos e grupos que se tratam de certo modo como coisas. E todas essas instituições exprimem unicamente apenas um fato, um regime social, uma mentalidade definida: é que tudo, alimentos, mulheres, filhos, bens, talismãs, solo, trabalho, serviços, ofícios sacerdotais e funções, é matéria de transmissão e de prestação de contas. Tudo isso vai e vem como se houvesse troca constante de uma matéria espiritual que compreendesse coisas e homens, entre os clãs e os indivíduos, repartidos entre as funções, os sexos, as gerações. (MAUSS, 2003, p.202-203).

Mas, além de uma troca de favores, a hospitalidade implementa uma troca de valores entre visitados e visitantes, fortalecendo o relacionamento humano entre esses, criando uma ponte de conhecimentos, fundindo visões de mundo. Em suma, além de artefatos próprios de uma boa estadia, tais como a acomodação, o conforto, as iguarias, é preciso também um compromisso de reciprocidade e de conhecimento repartido.
  Na sociedade seridoense, bem como em tantas outras, a casa chegou a se configurar em um local receptivo à cultura da hospitalidade, a essa troca de favores e valores. Por esse motivo, é até viável dizer que “nas fazendas, os viajantes eram sempre bem acolhidos e tratados com toda lhanesa. Para eles eram melhoradas as refeições, armada a rede mais alva e de melhor dormida [...]” (FARIA, 2006, p.51-52).
 Na casa grande de D. Senhorinha, um exemplo vivo dessa cultura foi revelado. No caminho da capital, ponto adequado ao tráfego de pessoas, fossem elas matutos, fazendeiros, pedestres e tantos outros, esse lugar se destacou, alcançou status.
Naqueles tempos, talvez o fato de não existirem hotéis e pensões para acomodar os viajantes, nas vilas e cidades do interior, associado à demora ocorrida para melhorar a estrada, de carroçável à rodagem, tenha contribuído para que essa casa assim se sobressaísse.
Contudo, vale ressaltar que D. Senhorinha, mesmo contando com o auxílio dessas circunstâncias, para aquela época, era uma renomada proprietária, esposa e depois viúva de um ilustre patriarca. Também filha de um grande fazendeiro, homem de destaque. Tudo isso, por si só, já reunia qualidades suficientes para que ela adaptasse o seu lar à forma de uma estalagem, uma vez que isto significava reconhecimento e prestígio social.
Portanto, no contexto em que sua casa foi inserida, essa mulher acabou por assumir vários papéis: mãe, amiga, cúmplice ou apenas dona do estabelecimento. Porém, independente do papel, uma boa acolhida era sempre garantida. O livro Bom Tom, trazido e deixado como regalo por um de seus tantos hóspedes, é, na verdade, uma prova do compromisso de reciprocidade entre visitante e visitado.

3. O Código do Bom Tom e as regras de civilidade nos contornos de um ambiente rural
           
Dentre os livros que chegaram ao Seridó, nos anos de 1800, consta um exemplar do Código do Bom Tom ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIXº Século. Tal código, de autoria do padre português José Inácio Roquette, trata-se de um guia didático com regras de cortesia e de bom comportamento social. Em suas páginas, estão compreendidos os preceitos e ensinamentos da civilidade.
Essa civilidade, todavia, não é aquela exclusivamente associada ao ideal do civismo ufanista, já tão bem conhecida pela contemporaneidade. Suas origens estão em outro momento da história, lá na França do século XIX. Nessa época,

“[...] abandonando a ambição ética e cívica dos anos revolucionários, a civilidade é entendida doravante como o código das boas maneiras necessárias na sociedade, como a nomenclatura dos usos da boa companhia. É fixada assim para todo século, a identificação da civilidade com a conveniência burguesa”. (CHARTIER, 2004, p.88-89)

Civilidade segundo o manual de Roquette, que, diga-se de passagem, viveu alguns anos em Paris durante esse período, significa, então, saber o que convém fazer ou não fazer em sociedade de acordo com um modelo de conduta preestabelecido.
Analisando todo esse conceito inicial, parece até discrepante imaginar o Bom Tom em um ambiente rústico, com valores tão distintos dos grandes centros como Paris. Entretanto, apesar de toda a diferença de espaço e costumes, o fato é que os impressos, assim como as idéias, circulam.
Há uma rede de fatores complexos, mas relevantes, que propiciam a circulação desses impressos, permitindo que eles ultrapassem as mais diversas fronteiras, chegando, por vezes, aos mais inusitados lugares.
O caso de Menocchio, personagem da obra de Ginzburg (1987), em O Queijo e os vermes, elucida e patenteia essa afirmação. Morando em uma pequena aldeia italiana chamada Montereale e até mesmo sendo autodidata, esse homem conseguiu ter acesso a uma variedade de livros.
Vale salientar que a chegada do Bom Tom à casa de D. Maria Senhorinha se assemelha um pouco ao caso de Menocchio, uma vez que também envolve todo esse processo do lugar inusitado.
Mas, de qualquer forma, o que importa é que, tal qual aconteceu em Montereale com outros livros, na estalagem do Sítio São Luiz, esse impresso ganhou significado, leitura, vida. Existe até registro de que a civilidade preconizada em suas páginas foi bem interpretada e aplicada pela matriarca da família Dantas Pegado Cortez, D. Marica Pegado. Na vez em que o Bispo Diocesano de Natal, D. Adauto, acompanhado do Vigário da Freguesia de Currais Novos e de outros cavalheiros, foi servido da hospitalidade de sua casa para um pernoite, a primeira página do jornal A República, editado em Natal, registrou que a comitiva ficara satisfeitíssima com as maneiras lhanas dessa senhora.
                       
4. Dona Maria Senhorinha: a senhora de maneiras lhanas e personalidade singular

Nas versões ofertadas pela história oral, a figura de Dona Maria Senhorinha ressurge com toda a força que os artefatos desse tipo de memória comportam. Nessas versões, a capacidade dos narradores para recriar uma imagem dessa personagem se revela livre e criativa, apresentando-se desvencilhada do tempo e fora do alcance de quem ouse intimidá-la dizendo, por acaso, ser testemunha dos fatos.
Essa é a forma como os acontecimentos são recompostos pela oralidade, como se houvessem ocorrido recentemente, relatados ao sabor dos sentimentos. Assim também Dona Senhorinha é lembrada, em sua origem indígena, como uma das últimas remanescentes de uma tribo que habitara o Seridó norte-rio-grandense, os cariris. Em todas as imagens dela construídas, nem mesmo detalhes de sua trajetória e traços de sua personalidade são negligenciados. De sua vida, até se ensaia um pequeno romance, bem ao gosto da cultura ocidental hegemônica, cuja expectativa era para que se “expurgasse o universo de pensamento e os saberes dos indígenas” (MACÊDO, 2005, p.144). Primeiro, uma índia braba, arredia, que ora fugindo da tribo, ora tendo sido roubada, fora morar sozinha na cidade, desgarrada do seu clã. Depois, uma mulher dotada de predicados morais, habilidades domésticas e adaptada ao modo de vida urbana “civilizada”, que fora tomada em casamento por um senhor muito importante e rico, deixando, dessa união, muitos descendentes. Nesse ponto, atinge-se um clímax e coroa-se o desfecho dessa narrativa com um final feliz. Aqui, as fórmulas dos contos de fadas, lendas, estórias de trancoso se fazem presentes e se mostram misturadas a acontecimentos reais e históricos, retrabalhados pela fantasia, subestimando época e lugar.
Essa é uma das facetas típicas da oralidade, recompor acontecimentos remotos, perdidos no tempo, atualizando-os, tornando-os contemporâneos, transformando-os em coisa de momento, recriando-os, mantendo-os vivos. É como se ocorresse “uma dilatação no tempo pela proliferação de uma história em outra (CALVINO, 1990, p. 51).
Como uma dessas facetas, além da história romanciada de D. Senhorinha, uma outra história, que na verdade é um capítulo que compõe os prenúncios da primeira, permanece viva na memória oral popular e é tida como atual. Trata-se da miscigenação de uma indígena com um dos primeiros colonizadores portugueses, Manuel Vaz Varejão, o qual contribuiu para povoar a região do Seridó. Esses, que eram os tetravôs de D. Marica, provavelmente por terem constituído uma união entre membros de famílias diferentes, infringiram tradições.  Tradições essas que, em um momento posterior, foram mantidas pelo restante da família, mas que vieram a ser novamente quebradas por Senhorinha, em seu casamento com um forasteiro. Além de quebradas, foram depois superadas, quando a mesma enviuvou e soube conduzir o lar, os negócios e ainda se destacar perante a sociedade.
É, portanto, sob esse contexto de personalidade ímpar, a qual transpassa o comum e se une ao singular, que essa mulher deve ser vista. Numa sociedade rural em que os principais papéis políticos e sociais eram destinados aos homens, na sua condição de patriarcas, ela ainda assim alcançou notoriedade. Aliás, é a partir desse pequeno esboço do trajeto de sua singularidade que ela veio a ser sinônimo de uma pluralidade de personagens: matriarca, esposa, viúva, preconizadora dos bons modos e anfitriã.

Considerações finais

Numa caligrafia com traços bem pessoais, dispensando regras e modelos e fazendo uso de instrumentos primitivos de escrita, há um registro na primeira página de um exemplar do Código do Bom Tom ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIXº Século atestando que o mesmo chegara ao sítio São Luiz num sábado, às dez horas da manhã do dia 1º de janeiro de 1870. O autor desse registro é o proprietário dessa fazenda que acolhera a obra, o Sr. Manuel Pegado Cortez. Segundo os costumes locais e época, na condição de chefe, patriarca, haveria de ser ele a ter o direito de imprimir o seu nome no novo bem adquirido para assim, além de aumentar o patrimônio da família, reafirmar sua condição de bom provedor e comandante da mesma. Serviria esse manual de “civilidade” e de costumes citadinos para ajudar sua mulher, Dona Maria Senhorinha, na educação dos seus filhos que, ao todo, foram quinze.
Considerando o ambiente profundamente rural no qual estavam localizadas as terras da Data da Pitombeira, no início desdobrada em três fazendas, é provável que o sítio São Luiz, ao obter a nova aquisição, tenha dessas outras duas se destacado. Possuir materiais impressos, louças, talheres, obras de arte, relógios e alguns outros acessórios mais, conferia status a esses lugares. Esses objetos eram vistos como raros, cobiçados, sofisticados, produtos inimagináveis de serem adquiridos nos centros urbanos da região do Seridó. A disputa pela herança de bens como esses, categoria em que se inserem os livros, leva a compreender como o exemplar Código do Bom Tom pertencente à família Dantas Pegado Cortez fora disputado entre seus membros. É até curioso observar que, tal como procedera o pai, três dos filhos, por ordem decrescente, Manuel Junior, Guilhermina e Maria Camila, lançaram-se proprietários do mesmo. Entretanto, o que aconteceu foi que esse acabou por recair à posse da mãe, D. Maria Senhorinha, pelo papel que esta desempenhou, pelo seu mérito da adequada assimilação dos ensinamentos de civilidade nele contidos.
Nesse ponto, o presente trabalho não se negou a uma justa homenagem aos historiadores norte-rio-grandenses, os quais não se intimidaram em afirmar que, nos longínquos sertões nordestinos, em remotas épocas, famílias acrescentaram ao seu patrimônio exemplares de livros que se editavam na Europa.
No caso das práticas culturais que estiveram em uso no Sítio São Luiz, demarcadas pela presença do Código do Bom Tom, o que se pode afirmar é que serviram para projetar Dona Maria Senhorinha, a qual pelos tantos atributos pessoais, conseguiu angariar respeito e demarcar com elevada distinção sua personalidade, sua capacidade de administrar.
Não é por outro motivo que no Edital expedido por João Alfredo de Albuquerque Galvão, Presidente do Governo Municipal de Currais Novos, quando das eleições para Presidente e Vice Presidente da Republica, marcadas para o dia 1º de Março do ano de 1899, consta que das três secções para votação em que seria dividido o Município, duas funcionariam no Paço do Governo Municipal e a outra no edifício de D. Maria Senhorinha Dantas Pegado Cortez, na Rua do Rosário da então vila de Currais Novos. Nesta casa não residia Dona Senhorinha, mas um de seus filhos. Servia-lhe sim de apoio, quando precisava permanecer no centro da vila. Mesmo assim, na hora da medida oficial pesou a estatura moral da moradora transitória.
Este estudo também reconhece que foi daquele ir e vir pelas estradas carroçáveis de outrora, dos meados do império ao início do período republicano, por meio do percurso de tropeiros, comboieiros, viajantes e pedestres, que o distrito de Currais Novos, em termos de movimentação, pôde romper barreiras.
Especialmente no sítio São Luiz, a casa de Dona Maria Senhorinha, local de estalagem, tal como os velhos castelos medievais isolados nas provinces francesas, com seus costumes particulares, serviu de ponto de ancoragem, desempenhando um papel aglutinador de sujeitos e culturas, da troca de valores e favores.  É por tudo isso que parece ser uma regra livros, culturas, impressos circularem e aportarem em casas de pessoas sensíveis, que sabem atribuir novas significações ao que ousam experimentar.
Portanto, o que se pode concluir é que o livro Bom Tom tenha sido talvez uma grande testemunha da prática cultural que inovara costumes no sertão seridoense, mesmo permanecendo forte a tradição do contar histórias, da oralidade, principalmente na hora da debulha do feijão que durava horas a fio, quando se davam as condições latentes para se renovar o universo da cultura agrária, a qual, certamente, também existia na casa de D. Maria Senhorinha. Entretanto, para esta senhora, talvez, o convívio com uma cultura letrada, tenha sido uma forma dela se reencontrar com sua formação de origens. A propósito, da forma como a praticou, denota-se até que soube atentar para os novos tempos, para uma modernidade contida na circularidade de impressos.

Referências

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BARRETO, Margarita. Manual de Iniciação ao Estudo do Turismo. São Paulo: Papirus, 2006.
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GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das letras, 1987.
GRINOVER, Lúcio. Hospitalidade: um tema a ser reestudado e pesquisado. In: DIAS, Célia Maria de Morais (org.). Hospitalidade: Reflexões e Perspectivas. Barueri/SP: Manole, 2002. p. 25-38
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MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: COSACNAIY, 2003.
MEDEIROS FILHO, Pe. João; FARIA, Oswaldo Lamartine. Seridó – Séc.XIX: fazendas e livros. Rio de Janeiro: Marques Saraiva, 2001.
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MELO, Manoel Rodrigues de. Patriarcas e Carreiros: influência do coronel e do carro de boi na sociedade rural do Nordeste. Natal: Ed. Universitária, 1985.
MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Seridó Norte-Rio-Grandense: uma geografia da resistência. Caicó/RN: Ed. do Autor, 2005.
QUINTINO FILHO, Antônio. História de Currais Novos. Natal: Fundação José Augusto, 1987.
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VEYNE, Paul. O inventário das diferenças. História e Sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1976.


[1] Professora Doutora do Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Campus de Currais Novos) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Coordenadora da Base de Pesquisa: Cultura e Educação no Seridó Norte-Rio-Grandense.
[2] Cf. MORAIS, 2005. Nessa referência, a autora trabalha um conceito que vai além da simples descrição dos aspectos físicos e geográficos da região. Nesse sentido, torna-se possível confirmar a idéia de que o Seridó, hoje formado por 23 Municípios, teve uma regionalização historicamente constituída, marcada pelo desmembramento do Município de Caicó.

Uma postagem diferente: os intelectuais de Currais Novos.

INTELECTUAIS E A EDUCAÇÃO NA CURRAIS NOVOS DOS ANOS 1920/1930
Fonte: Google.
Edilma da Silva Cortez – Universidade Federal do Rio Grande do Norte
O estudo intitulado Currais Novos e os ideais progressistas dos galvanopolitanos
(1920 / 1930), constituinte da Base de Pesquisa Cultura e Educação no Seridó Norte–Rio-
Grandense, tem como objetivo conhecer e compreender a Modernidade que foi produzida em
Currais Novos / RN nos anos 20 e 30 do século findo, buscando identificar as idealizações e
os autores dessa Modernidade, tendo em vista analisar as práticas culturais e os modos como
esses autores pensaram o novo e instituíram mudanças, enfocando, especialmente, o sentido
que dispensaram à questão da Educação.
Como suporte, trabalha com a concepção de Modernidade entendida,
fundamentalmente, como um novo tipo de racionalismo, em vínculo com uma vida social
subsequente ao desenvolvimento capitalista industrial. Nesse sentido, compreende a
Modernidade como um fenômeno característico da cultura ocidental, constituindo-se
enquanto um corpo cultural novo, movido por lógica interna própria de sociedade que, no
campo da Educação, formalizou-se sob o ideário da Escola Nova. Como base empírica, utiliza
jornais que circularam nessa cidade nas décadas de 1920 e 1930, a saber: O PORVIR, O
GALVANÓPOLIS e NINHO DAS LETRAS, os quais foram selecionados para análise dos
valores e práticas culturais, neles contidos, dos intelectuais responsáveis pela concepção e
divulgação do ideal de Modernidade nesse Município.
Um desses intelectuais foi Ewerton Dantas Cortez, sendo sua produção jornalística
analisada, neste estudo, a título de exemplificação. Essa escolha não se deu de forma
aleatória, haja visto a identificação de seu discurso com as idealizações socioculturais,
políticas e econômicas dos pioneiros da proposta de Modernidade nesse Município, nas
primeiras décadas do século passado. Procurou-se, pois, explicitar até que ponto os textos do
referido autor contribuíram para a divulgação desse novo ideal, e em que medida ele pode ser
considerado um pioneiro da Modernidade curraisnovense.
A importância desse estudo reside no fato de permitir que antigas fontes sejam
(re)visitadas, e, a partir delas, novas reflexões e novos comentários possam ser concebidos,
contribuindo, assim, para uma (re)leitura da História de Currais Novos. Isso porque, quando
considerada a escrita da História recente desse Município, verificou-se o predomínio de um
referencial substanciado no senso comum, o qual não condiz com as observações feitas por
este estudo a partir do material empírico levantado. Nesse sentido, a história que pretende-se
(re)construir, ainda que em fragmentos, é entendida como uma contribuição à História dessa
cidade, por empreender novas revelações, e sobre essas, tecer novas interpretações,
enriquecedoras dessa mesma História.
O primeiro jornal a ser examinado foi O PORVIR – Órgão Humorístico, Literário e
Noticioso, que circulou de 02 de maio de 1926 a 20 de janeiro de 1929, com um total de 39
edições. A 1ª edição apresentava a seguinte diretoria: diretor: Nelson Geraldo, e redatores:
Ewerton Dantas Cortez e Manoel Rodrigues de Melo; a 2ª, de 30 de maio de 1926, trouxe
algumas mudanças na direção, quando Manoel Rodrigues de Melo assumiu o cargo de
Gerente; e a 6ª, de 03 de outubro de 1926, apresentava, como secretário, Jayme Carneiro
Barreto. A diretoria ficou assim constituída até 10 de março de 1928, 26ª edição do jornal,
quando, com a saída de Nelson Geraldo, Ewerton D. Cortez passou a Diretor, Manoel R. de
Melo a Redator–Gerente, permanecendo Jayme C. Barreto como Secretário. Na ocasião,
alterou-se também o nome do jornal, que passou a se chamar O PORVIR – Órgão
Independente, Literário e Noticioso. Essa diretoria exerceu suas funções até 20 de janeiro de
1929, data da última edição do jornal.
O Imaginário Moderno em Currais Novos
No Brasil, a Proclamação da República, em 1889, constituiu o marco inicial para a
construção de um paradigma sociocultural e econômico de país que fosse capaz de absorver
as idéias centrais e atender as exigências do Capitalismo em expansão, sendo resultado de um
projeto idealizado por militares, literatos e clérigos. Intelectuais, em sua maioria, de origem
humilde, que buscavam romper com a elite aristocrática e seu sistema de governo, o Império,
a fim de alcançarem status social mais elevado e maior representatividade política. Entretanto,
o fim do Império como instituição não representou o fim dos valores e práticas culturais da
sociedade imperial e escravocrata. Dessa forma, o período que vai de 1889 a 1930, conhecido
como República Velha, foi marcado pela fraqueza de um poder central e pela presença de
oligarquias regionais que se revezavam no poder , graças ao poderio econômico de dois
estados: São Paulo e Minas Gerais. Era a chamada política do Café–com–Leite.
A década de 1920 caracterizou-se pela crise dessa estrutura sociocultural, econômica e
política. Crise essa, que culminou com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas
ao poder. Nesse período, buscou-se implementar um novo modelo de Brasil, inserido no plano
urbano–industrial exigido pela ordem social em expansão, além da elaboração de um discurso
de apologia ao novo, pelos intelectuais que surgiam, em detrimento àqueles que idealizavam a
República. Esse novo grupo de intelectuais era formado, sobretudo, por médicos (porque era
preciso mudar os hábitos sanitários e higiênicos da população para impor hábitos mais
“civilizados”), engenheiros (porque a reformulação do espaço físico e a urbanização
influenciariam, de algum modo, na organização social) e educadores (porque era preciso
reconstruir as consciências, adaptando-as aos novos padrões de civilização), especialistas em
áreas estratégicas, porque assim exigia o novo desenvolvimento industrial que então se
instalava.
Em Currais Novos, pelo menos nos discursos, não foi diferente, apesar de suas
especificidades. O período compreendido entre 1920 e 1930 caracterizou-se por uma grande
efervescência cultural e sentimento de renovação. A maioria das matérias veiculadas pelo
jornal O PORVIR faziam apologia ao progresso e à civilização, assim como divulgavam e
elogiavam os avanços já estabelecidos na região: O surto de progresso que avassala na hora
presente os nossos sertões é, de fato animador. (O Porvir, nº34, p.01, 16/09/1928) e a
humanidade como que numa fase de acentuadas realizações, espreita consecutivamente o
surto de progresso que se desenvolve em nosso Estado.(O Porvir, nº39, p. 05, 20/01/1929).
Além disso, o ideal de Modernidade para Currais Novos foi elaborado por novos
intelectuais que, como veremos, enquadravam-se, com precisão, no estereótipo do intelectual
brasileiro dos anos de 20 e 30, e, ao mesmo tempo, apresentavam peculiaridades em sua
origem e formação, específicas da realidade curraisnovense.
Origem e formação dos intelectuais curraisnovenses
No Brasil, ao longo dos anos 1920/1930, a palavra moderno ganhou status de uso
quase obrigatório no ambiente intelectual de então. Isso porque ser moderno significava, antes
de tudo, tentar assumir um lugar prestigiado no debate científico ou artístico1, ou seja,
assumir, na sociedade, a função de intelectual. Sobre o assunto, Gramsci2 estabelece que
qualquer atividade ou função exigem o mínimo de técnica, ou seja, de uma atividade
intelectual criadora, para ser desempenhada. Nesse sentido, pode-se dizer que todos os
homens são intelectuais, mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de
intelectuais. No que se refere à origem e formação dos intelectuais, enquanto classe social, o
referido autor afirma que essas podem ser diversas. Porém, destaca duas como sendo as mais
importantes: de origem orgânica, quando um determinado grupo social cria para si uma
categoria de intelectuais , que possa lhe dar homogeneidade e consciência de sua função; e, de
origem tradicional, quando um grupo social, surgido a partir do desenvolvimento de uma
determinada estrutura, encontra uma categoria de intelectuais pré–existente, os quais se
posicionam enquanto representantes de uma continuidade histórica. Quanto ao tipo, os
intelectuais podem caracterizar-se enquanto urbano, criados com o desenvolvimento da
1 HERSCHMANN e PEREIRA, 1996.
2 GRAMISCI, 1978.
indústria e ligados às suas vicissitudes, ou rural, ligados às massas sociais camponesas e
pequeno–burguesas das cidades ainda não movimentadas pelo sistema capitalista industrial.
Entre os intelectuais curraisnovenses das décadas de 20 e 30, pioneiros e com posições
definidas de Modernidade, encontramos jovens oriundos das famílias mais representativas da
cidade, enviados por seus pais para estudarem na capital do Estado, e que, ao retornarem,
traziam um discurso de apologia à civilização e ao progresso, no qual colocavam-se como
detentores de um poder de mudança que, reconhecendo a forma como a população estava
presa à tradições, acreditava ser capaz de conduzi-la à Modernidade: Galvanópolis precisa,
pois, acompanhar o grande evolutivo da época, resolvendo momentosos problemas para
ascender a brilhante posição que lhe está reservada.(O Porvir, nº03, p.02, 27/06/1926). Os
benefícios a partir dessa postura recaem, principalmente, sobre segmentos sociais
representativos do sistema latifundiário e, com menos intensidade, sobre os setores
imediatamente ligados a ele, quais sejam, comércio, burocracia pública e privada, além de
certas atividades profissionais autônomas. Dessa forma, podemos dizer que os pioneiros da
Modernidade curraisnovense eram filhos dessas duas classes, ou seja, tanto daquela
tradicionalmente existente, símbolo de uma velha ordem econômica e representada pelos
latifundiários, quanto daquela que surgia em decorrência do processo de desenvolvimento
urbano, ao qual esses mesmos pioneiros teciam elogios. O caso curraisnovense constitui,
portanto, uma particularidade no que se refere à origem e formação de seus intelectuais, haja
visto, por um lado, possuírem uma mentalidade arraigada à antigos princípios, e, por outro,
mostrarem-se imbuídos e portadores de uma nova cultura, inaugurada junto com a concepção
de vida urbana. Essa urbanidade, apesar de seus novos traços, trazia consigo a marca da
permanência de velhas estruturas econômicas, pois, não havia ainda, em Currais Novos, uma
base industrial na qual os intelectuais pudessem se firmar. Por outro lado, é inegável que
novas oportunidades profissionais surgiam com o desenvolvimento e diversificação da
economia de mercado: Entre outros ramos de indústrias que merecem o nosso concurso, em
face das possibilidades lucrativas que oferecem, temos o aproveitamento das sementes
oleaginosas.(O Porvir, nº22, p. 01, 11/12/1927).
Assim, a marca da formação moderna desses intelectuais se dava pela identificação
com o discurso e práticas culturais dos novos grupos sociais que buscavam firmar-se naquela
época, ou seja, a nova burguesia; enquanto que a marca da formação tradicional era mantida,
uma vez que esses intelectuais portavam resquícios de uma concepção de sociedade assentada
sob uma política de colonização exploradora, cujas reminiscências, em Currais Novos, se
faziam sentir sob a manutenção de uma cultura de coronelismo em vínculo com o latifúndio,
dando, dessa forma, uma certa continuidade histórica à essa política. Isso significa dizer que,
apesar dos discursos de apologia ao novo, ao moderno, e das novas práticas econômicas e
socioculturais, o poder político continuou a ser exercido pelas famílias tradicionais, através de
coronéis, aos quais os pioneiros da Modernidade estavam ligados por laços de parentesco ou
amizade. Portanto, podemos dizer que esses intelectuais classificam-se, quanto à formação,
em tradicional e orgânica, e, quanto ao tipo, por isso mesmo, rural e urbano, simultaneamente.
Eis aí o grande paradoxo dos intelectuais curraisnovenses dos anos de 1920 e 1930.
Intelectuais e Educação em Currais Novos
Para os intelectuais curraisnovenses, possuidores de um discurso apologético ao
progresso e à civilização, no qual se imbuíam de um poder de mudança, capaz de retirar o
povo da situação de estranheza perante a Modernidade que difundiam, a Educação era de
suma importância, pois somente através dela seria possível a instalação definitiva do
progresso nessa cidade: Incontestavelmente é a instrução o fator único que impulsiona esta
marcha ascensional na qual a inteligência sempre triunfa. (O Porvir, nº11, p. 01,
03/04/1927). Por este motivo, empreenderam inúmeras campanhas em prol da Educação,
sendo cada qual considerada a mais útil e nobre (O Porvir, nº03, p. 03, 27/06/1927) daquelas
que visavam os interesses da nação: Não se compreende que um povo tenha energia,
vitalidade, inteligência, perseverança, até mesmo CONSCIÊNCIA na consumação de seus
atos, quando este povo seja IGNORANTE, seja ANALPHABETO.(O Porvir, nº13, p. 01,
31/05/1927). Trata-se de uma postura convencional entre os intelectuais brasileiros dos anos
20 e 30, que eram formados por especialistas, principalmente, nas áreas da Engenharia,
Medicina e Educação, esta última considerada o germem do bem (O Porvir, nº25, p. 02,
15/02/1928). Áreas essas, exigidas por e vinculadas ao desenvolvimento urbano - industrial
em expansão, ao qual justificavam e davam estabilidade.
Oculto sob esse ideal de uma Educação redentora, observou-se, como traço do
discurso desses intelectuais, a concepção escolanovista, na qual a Educação assumiria a
função de um instrumento para se obter uma revolução dentro da ordem, isto é, a reelaboração
de valores e práticas culturais de acordo com os ideais do novo desenvolvimento social, sem
haver alterações na estrutura de poder. Em suma, a Educação funcionaria como um meio de
homogeneização cultural, uma vez que seu propósito era reconstruir as consciências,
adaptando-as à ideologia dominante, a qual era, desse modo, legitimada. Esse processo de
reconstrução da consciência popular representaria, entre outros aspectos, o fim da luta de
classes, pois supunha-se que a nova educação, ensinada gratuitamente nos bancos escolares,
veicularia a idéia de que todo homem, seja qual for sua classe social, participa de um processo
no qual o maior beneficiado é o Brasil enquanto nação. Assim, o trabalho proletário era
imprescindível para o crescimento econômico do país, mas necessitava da burguesia para
controlá-lo e conduzi-lo. Desse modo, a Educação retiraria do proletariado a capacidade de
argumentar contra a exploração capitalista, atuando, portanto, como um Aparelho Ideológico
do Estado, daí a necessidade de o ensino ser gratuito. A escola é incontestavelmente o
primeiro favor que a criança recebe do Estado. Causa sublime de todo o bem: da felicidade,
da harmonia e da grandeza de um povo, é a escola primária de tanta influência nas classes
laboriosas, que em grande parte, depende dela o futuro de uma raça inteira de um país.(O
Porvir, nº24, p. 03, 19/01/1927). Justifica-se, assim, as inúmeras campanhas empreendidas
pelos intelectuais curraisnovenses em benefício da Educação.
Essa postura deve-se, entre outros aspectos, ao estereótipo do brasileiro forjado pelos
novos intelectuais: mestiço, sensual e malandro. O povo brasileiro, incapaz de organizar-se
coletivamente, dada a sua pluralidade cultural, necessitava de um poder superior, que fosse
capaz de guiá-lo rumo ao progresso. Esse pensamento justificou, no campo político, a
implantação de um Estado autoritário, o Estado Novo, em 1937; e representou, no âmbito
educacional, o discurso da Escola Nova.
Um caso particular: Ewerton Dantas Cortez
Ewerton Dantas Cortez era filho do Coronel Joaquim Pegado Dantas Cortez e de D.
Guilhermina Dantas Cortez. Nasceu no berço de uma das mais representativas famílias
curraisnovenses, ligada à agropecuária e à política locais. Sua juventude foi marcada pela
participação constante na vida intelectual da cidade. Já nos primeiros meses de 1926, ao lado
de um grupo de estudantes, elaborou um jornal que foi apresentado ao professor Gilberto da
Cunha Pinheiro. Tratava-se do número zero do jornal O PORVIR. O prof. Gilberto Pinheiro
aprovou a idéia, incentivou a publicação do mesmo, e, em 02 de maio do mesmo ano foi
colocada nas ruas a 1ª edição do jornal, intitulado O PORVIR – Órgão Humorístico, Literário
e Noticioso. A diretoria foi assumida por Nelson Geraldo, enquanto que Ewerton assumiu a
redação, inicialmente, ao lado de Manoel Rodrigues de Melo (ou Manoel Rodrigues Filho), e
depois, sozinho. Função essa, que exerceu até 10 de março de 1928, quando assumiu o cargo
de Diretor. Na ocasião, o jornal passou a se chamar O PORVIR – Órgão Independente,
Literário e Noticioso. Além de redator e, posteriormente, diretor de O PORVIR, Ewerton D.
Cortez assinou diversas matérias como colaborador no referido jornal, adotando, além do
próprio nome, os seguintes pseudônimos: E.C. e Ewerdantez. Colaborou, ainda, em outros
periódicos da cidade, como, por exemplo, O GALVANÓPOLIS, no qual assinou como G.
Nerino, Ewerdantez e Ewerton D. Cortez; e NINHO DAS LETRAS, assinando como Ewerton
Cortez.
Muito admirado por seus contemporâneos, Ewerton foi tema de diversas notas
publicadas em O PORVIR, as quais sempre traziam elogios aos seus talentos e virtudes:
Ewerton já não é um vulto desconhecido nas lides jornalísticas, porquanto há muito vem
atestando a sua elevada cultura, a sua mentalidade e dedicação às letras, sendo portanto, o
sustentáculo principal d’O Porvir.(O Porvir, nº20, p. 01, 08/11/1927). Mereceu, inclusive, a
publicação de poesias dedicadas à sua pessoa, intituladas Veronal, de Oscar Macedo (O
Porvir, nº24, p. 02, 19/01/1928), O Operário, de Xavier de Araújo (O Porvir, nº02, p. 02,
20/07/1928) e Pranto, de L. Lobato (O Porvir, nº34, p. 01, 16/09/28). A nós não é possível
afirmar ainda o real motivo pelo qual esses poemas foram dedicados ao jovem Ewerton, mas
acreditamos que sua influência social e, sobretudo, o fato de ele fazer parte do corpo editorial
do jornal constituía-se enquanto garantia de publicação dessas poesias, geralmente de autores
desconhecidos ao grande público, em um meio de comunicação que, para os padrões da
época, era bastante abrangente.
A compreensão da produção jornalística de Ewerton Cortez só é possível mediante a
análise das características gerais do intelectual brasileiro dos anos de 1920 e 1930, e da
condição especifica do intelectual curraisnovense do mesmo período. Ewerton fazia parte de
uma nova geração de intelectuais, que dedicou-se à elaboração de um discurso de elogio e
divulgação dos ideais de progresso e civilização, ajudando a criar um novo modelo de Brasil,
pautado sob o novo paradigma moderno. A maioria dos intelectuais brasileiros das décadas de
1920 e 1930 buscava construir, sob a égide desse novo paradigma, a identidade cultural
brasileira. Identidade essa, baseada em valores que distinguissem o homem brasileiro do
homem europeu, para os quais foram determinantes dois critérios: raça e sexualidade.
Difunde-se, assim, um estereótipo de brasileiro, definido como mestiço (pois era fruto da
miscigenação de várias raças e culturas), sensual (a miscigenação intensificou a sensualidade
nativa) e malandro (incapaz de organizar-se coletivamente, preferindo sempre as soluções
mais fáceis). Por outro lado, quando consideramos que o pensamento tido como moderno foi
importado da Europa, e que o que tencionava-se fazer era colocar o país em pé de igualdade
com os europeus, no que diz respeito à organização social, percebemos a existência de uma
contradição no próprio cerne do discurso de apologia à Modernidade veiculado por esses
intelectuais. Isso porque os mesmos foram moldados sob a égide de um dualismo, uma vez
que, por um lado, consideravam-se fundadores e reveladores da identidade cultural brasileira,
assumindo assim, uma postura autoritária; e, por outro, valorizavam a ambigüidade, fruto da
miscigenação, como elemento constitutivo dessa mesma identidade, numa tendência
antropofágica, no sentido de devorar a cultura estrangeira em benefício da cultura nacional,
libertando-a dessa influência importada, assumindo assim uma postura libertária3.
O diálogo autoritário x libertário, ao assumir maiores proporções, também se faz
presente na produção de Ewerton Cortez. Observamos isso, sobretudo, nos textos dedicados
ao debate da condição feminina. No Rio Grande do Norte, em fins de 1927, foi concedido,
pelo então Presidente do Estado, Juvenal Lamartine, o direito de voto às mulheres. Essa
decisão causou enormes polêmicas. Houve quem a criticasse acirradamente, mas houve
também quem adotasse uma postura menos dogmatizada e mais moderna. É o caso de
Ewerton. Apesar disso, seus discursos acerca do voto feminino caem em constantes
paradoxos, o que justifica-se de duas formas: 1) o intelectual brasileiro dos anos 20 e 30 foi
moldado a partir de uma ambigüidade; e, 2) o intelectual curraisnovense apresenta uma
gênese paradoxal, pautada em especificidades já descritas anteriormente: Efetivamente não
deve haver mesmo diferença alguma entre os dois sexos, como muitos, por egoísmo talvez
queiram impor(...)Portanto (...) deviam seguir paralelamente a estrada da vida, sem certos
abusos de direitos pois o homem é e sempre será o HOMEM, e a mulher nunca deixará de ser
o que é... (...) A primeira vitória fecunda em nosso continente coube às patrícias norte-riograndenses,
que acabaram de alcançar o direito ao voto, portanto a cidadania
independente!(O Porvir, nº22, p. 01, 11/12/1927).
Como vemos, neste fragmento a marca da formação paradoxal do intelectual Ewerton
Cortez se revela pelo diálogo autoritário X libertário em seu discurso. Autoritário na medida
em que afirma enfaticamente o homem é e sempre será o HOMEM e a mulher nunca deixará
de ser o que é..., pois, ao grafar a palavra homem com letras maiúsculas e utilizar reticências
após insinuar qual é a posição da mulher, da qual ela nunca poderá abdicar, estabelece uma
relação de superioridade X inferioridade entre os dois sexos. O autor defende, aqui, uma
postura autoritária e, ao mesmo tempo, tradicionalista, que se choca com a afirmação anterior,
não deve haver diferença alguma entre os dois sexos, como muitos, por egoísmo talvez
queiram impor, de tendência puramente libertária, inclusive por constituir-se uma crítica
àqueles que não admitem o soerguimento intelectual, social e político da mulher.
Além disso, alguns de seus textos convergem para a crônica, aqui, com o sentido de
um texto de orientação jornalística; concebido de forma livre e pessoal; que tem como assunto
um fato ou idéia da atualidade, no caso, os novos valores de progresso e civilização. Uma das
3 HERSCMANN e PEREIRA, 1996.
matérias mais representativas do autor, nesse sentido, intitula-se O que é hoje Galvanópolis...,
da qual transcrevemos alguns fragmentos: Empreendi um passeio somente para contemplar a
esplendorosa paisagem (...)Galvanópolis é uma cidade de topografia realmente majestosa e
que nestes últimos tempos tem passado por uma série de aperfeiçoamentos (...), não obstante
o agricultor sertanejo ainda está em estado de muito atraso, (...).cousa esta que não pode ser
admitida em parte alguma, quando a ciência, o progresso e a civilização em tudo penetrou
(...), mas essas irregularidades não são motivos que venham a ofender diretamente o nosso
progresso(...)Que é hoje Galvanópolis? É uma futurosa cidade, onde a instrução, o trabalho
e a civilização têm suas sementes bem arraigadas no espirito de seus habitantes(...) é uma
cidade que evolui a passos agigantados, tendo de ascender, em breve à meta da
perfectabilidade. (O Porvir, nº07, p.02, 24/10/1926).
Destacam-se no texto: a presença do pensamento iluminista, revelado pela crença na
Perfeição enquanto último estágio evolutivo na História de qualquer povo e nos ideais de
progresso, desenvolvimento e civilização; a crença na Educação enquanto elemento
fundamental e decisivo para a concretização desses ideais; e, ainda, a proposta da Escola
Nova de revolução dentro da ordem e fim da luta de classes. A situação explica-se melhor da
seguinte forma: já foi dito que o educador, enquanto intelectual/especialista criado para
atender uma necessidade do capitalismo industrial, tinha por função reconstruir as
consciências, adequando-as aos novos padrões de civilização. Trata-se de uma proposta da
Escola Nova, que negava a luta de classes, convertendo-a em cooperação solidária, e
colocando-a sob novas bases, as quais afirmavam que a divisão entre proletariado e burguesia
era apenas uma necessidade da Modernidade. E Modernidade era sinônimo de progresso, de
prosperidade para a nação. O trabalhador, educado para compreender-se enquanto elemento
fundamental no processo modernizador, perderia sua autonomia. Seria o fim da luta de classes
– a grande reforma - que permitiria à burguesia auto-conservar-se no poder, pois as mudanças,
propostas pelo ideário moderno, seriam produzidas e, simultaneamente, controladas.
Em síntese, podemos determinar e situar os intelectuais que encarregaram-se de
difundir o ideal de modernidade em Currais Novos, nos anos de 1920 e 1930, como sendo
jovens nascidos em famílias tradicionais; educados em uma realidade diferente daquela de
que são originários; e que tiveram contato com a proposta da Modernidade e da Escola Nova,
elaborando um discurso de reconhecimento e elogio ao progresso e a civilização, típicos da
pedagogia escolanovista e do pensamento moderno, bem como de todas as propostas que
surgiram como legitimação à ascensão do Capitalismo Industrial. No que se refere à Ewerton
Dantas Cortez, é possível enquadrá-lo tanto nos padrões que caracterizavam o intelectual
brasileiro dos anos 20 e 30, quanto no perfil peculiar do intelectual curraisnovense, cuja
trajetória foi paradoxal, uma vez que, assim como os demais intelectuais seus
contemporâneos, mostrava-se defensor de um ideal de mudança, e ao mesmo tempo,
permanecia ligado à tradição, representada pelo latifúndio; traços esses, que se revelam
através das inúmeras ambigüidades observadas em sua produção jornalística.
BIBLIOGRAFIA
BOBBIO, Noberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na
sociedade contemporânea. 2 ed. São Paulo: Editora da UNESP, 1997.
FAUSTO, Boris. Pequenos ensaios de História da República (1889-1945).São Paulo:
CEBRAP, 1972.
GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. 2 ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1978.
HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
HERSCHMANN, M. KROPF, S. NUNES, C. Missionários do Progresso: médicos,
engenheiros e educadores no Rio de Janeiro (1870/1937).Rio de Janeiro: Diadorim, 1996.
HERSCHMANN, Micael. PEREIRA, Carlos A. M. (org). A Invenção do Brasil Moderno:
medicina, educação e engenharia nos anos 20 e 30. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
MICELI, S. Intelectuais e classes dirigentes no Brasil (1920/1945).São Paulo: DIFEL, 1979.
MONARCHA, Carlos. A reinvenção da cidade e da multidão: dimensões da modernidade
brasileira: a Escola Nova. São Paulo: Cortez, 1990.
PÉCAUT, D. Intelectuais e política no Brasil: entre o povo e a nação. São Paulo: Ática, 1990.
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do Iluminismo. 6 ed. São Paulo: CIA das Letras, 1987.
SOUZA, Nelson de Mello e. Modernidade: desacertos de um consenso. Campinas, SP:
Editora da UNICAMP, 1994.




domingo, 16 de dezembro de 2012

A lagoa de São Miguel, em Currais Novos.

Olhem aí, gente. Um local paradisíaco de Currais Novos para curtir no próximo inverno. Basta levar uma barraca. isopor, água mineral, cerveja, gelo, comida, roupas e outros apetrechos para sobrevivência no meio do mato, vendo as estrelas, os meteoritos queimando no espaço, o coaxar dos sapos e uma costela humana quentinha para atiçar aquilo e aquilo outro. Experimente. Não paga nada. Só não deixe  lixo. Depois, você divulga o local. È ali pertinho do sítio São Miguel.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A pedra de níquel e a piscina no meio do mato.

Duas belezas naturais para se curtir em Currais Novos: a pedra oca, que emite som parecido com o som de sino de igreja, na localidade Totoró, e a lagoinha da região de "São Luiz", com águas do olheiro do açude nas terras que pertenceram a Marica Pegado. Essa culta e letrada mulher de origem índigena, aliás, era uma criança índia, que foi capturada (caçada por cinco cavaleiros numa serra, hoje pertencente a Carnaúba dos Dantas, segundo Dalva Pegado Cortez, 86, residente em Macaíba) e criada por um casal de Acary, casada com Manoel Dantas Pegado Cortez e passou mais de  de 40 anos solteira até falecer em 1927. Na época, chamava-se Carnaúba, distrito de Acary, hoje pequeno município. O casal teve 15 filhos. Pois bem, segundo Napion Pegado Cortez,  o marido dela nunca levou a esposa para Natal para apresentar a sua família. E assim, D. Maria Senhorinha da Silva, transformou-se em Maria Senhorinha Dantas Cortez e morreu sem conhecer os pais e irmãos do marido. Ele era dos Pegado Cortez de Goianinha, no distrito que hoje é o município de Espirito Santo. Por que? Mas isso é outra história, pois Marica Pegado é história na família Pegado Cortez.. Alfredo Pegado Cortez era branco, loiro e olhos azuis e filho de "Marica Pegado" e Manoel Pegado Cortez. Não seria ele descendente da família do falecido desembargador Anselmo Pegado Cortez?

Mais fotos do ponto turístico esquecido.



Três herdeiros dos antigoa proprietários do sítio São Miguel, hoje totalmente reformado e Diva Gomes, viúva de José Xavier Gomes, o filho Eduardo e sua irmã Antonia.Custo da recuperação: R$ 6 mil.


Coisas para turistas verem: fósseis, casarões e pedras com inscrições rupestres na área de São Miguel, São Luiz, Condado e outros pontos turísticos a  menos de 4 kms. da BR 226, na zona rural de Currais Novos. Casarões e sítios de proprietários das famílias Pegado Cortez, Gomes, Xavier Gomes, etc, a menos de 170 quilômetros de Natal.

Plantas e gatos do mato no meio da caatinga.

Bananeiras crescem sem aguação humana, pois o lençol freático não é profundo, segundo informações, onde florescem plantas, tipo cardeiros, enquanto os gatos maracajás vivem e se proliferam nas vazantes e nos capinzais.Há um "olheiro" atrás do açude que verte água o ano inteiro, mas diminui nos períodos de secas, como a atual que perdura há mais de um ano.

Mais fotos do casarão de Marica Pegado.

A poucos metros do casarão que foi residência e pousada de Marica Pegado uma área que é um oásis no meio da caatinga - um açude que nunca secou totalmente. Tem potencial para se transformar em ponto turístico.

Os dois casarões de "São Miguel" e "São Luiz", em Currais Novos.

As duas primeiras fotos são do Sítio S. Miguel, cujo casarão é do século 19 e construído pelo capitão José Gomes de Mello. Diva Gomes, seu filho Eduardo Xavier Gomes e Antonia, irmã de Diva, aparecem no terraço e na frente do casarão. Na 1ª foto, está Rejane Maria Montenegro Cortez, esposa de Luiz Gonzaga.
A terceira foto é do casarão da localidade "São Luiz", de Maria Senhorinha Dantas Cortez, a "Marica Pegado", falecida em 1927. O imóvel pertence aos herdeiros de Alfredo Pegado Dantas Cortez, residentes em Natal.
Fotos feitas em setembro de 2009 por Luiz G. Cortez Gomes de Melo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

OS UMBELINOS

 Artigo publicado no “O Jornal de Hoje” desta terça-feira, 18 de agosto de 2009
Os Umbelinos
João Felipe da Trindade (hipotenusa@digi.com.br)
Professor da UFRN e membro do IHGRN
Boa parte das informações genealógicas que darei aqui, neste artigo, foi extraída do livro “No Roteiro dos Azevedos e outras famílias seridoenses”, de Sebastião de Azevedo Bastos. É um livro com mais de 700 páginas que trata de muitas famílias aqui do Rio Grande do Norte. Raro, está sendo oferecido no site da Estante Virtual por R$ 900,00. Por sua extensão, o livro de Sebastião chega a ser confuso em alguns trechos, troca nomes em outros, havendo necessidade de muita paciência para destrinchar algumas partes. Não tive, ainda, oportunidade de conferir as informações nele contidas com os livros de registros da Igreja. Pode, portanto, haver equívocos.
Escreveu Sebastião em um dos capítulos: “Resumidamente, de acordo com minhas notas, descrevo aqui a árvore genealógica citada nas referidas publicações “O Município de Picuí – Subsídio histórico, em que Abílio César diz o seguinte: “No começo do século passado veio da região denominada Serra Branca, em Pedra Lavrada, um fazendeiro experimentado, de nome Antonio Ferreira de Macedo, casado com Tereza Maria da Conceição Macedo, destinado a explorar terras na bacia do Rio Picuí ou Acauã, onde se estabeleceu com fazenda de gado, constituindo um dos troncos da família Macedo, naquela zona, sendo irmão de Vicente Ferreira de Macedo e Estevão José da Rocha, este o Barão de Araruna, da história política de Bananeiras. Como consta neste capítulo, esses três irmãos eram filhos do casal Antonio Ferreira de Macedo e Anna Arruda Câmara Ferreira de Macedo, netos de Manoel Ferreira de Macedo e de Rosa Maria Ferreira de Macedo e do capitão-mor Francisco de Arruda Câmara e de Maria Saraiva da Silva Arruda Câmara, deixando o casal Antonio Ferreira de Macedo e Tereza Maria da Conceição, os filhos com a descendência seguinte.”
Dessa relação citada no livro, destaco Thereza de Barros Macedo e Urçula de Macedo Gomes de Melo. Em outro trecho Urçula é apresentada como filha de Vicente, irmão de Antonio Ferreira de Macedo, mas é corrigido por Sebastião.
Thereza era casada com Antonio Guilherme de Macedo, seu primo, filho do casal Vicente Ferreira de Macedo e Tedora  de Barros Macedo. Em outro trecho, Antonio aparece como filho de Vicente Ferreira de Vasconcelos e Mariana Ferreira de Vasconcelos, outra contradição. Teodora, por sua vez, era filha de Antonio José de Barros (Morgado) e de Isabel Ferreira de Mendonça Barros, neta do casal Antonio Paes de Bulhoes e Anna de Araujo Pereira Paes Bulhoes, e  bisneta do patriarca Tomaz de Araujo Pereira e sua esposa Maria da Conceição de Mendonça Pereira.
Entre os filhos de Thereza e Antonio Guilherme está Felismina Maria de Macedo Gomes que era casada com Francisco Umbelino Gomes de Melo, filho de José Gomes de Melo e Urçula de Macedo Gomes de Melo. Portanto, Felismina e Francisco Umbelino Gomes de Mello eram primos legítimos. José Gomes de Melo, esposo de Urçula, é citado como filho de José Gomes de Melo e Anna Maria Gomes de Melo, primitivos proprietários da Fazenda São Miguel do município de Currais Novos. O nome Umbelino foi adotado como sobrenome por alguns dos descendentes de Francisco Umbelino.
Entre os filhos de José Gomes de Melo e Urçula de Macedo Gomes de Melo estão Francisco Umbelino Gomes de Melo, citado acima; Luiz Gomes de Melo Lula, casado em primeira núpcias com Tereza de Melo e em segunda com
Maria Idalina Rocha de Melo Lula; e  Manoel Salustino Gomes de Macedo casado com Ananília Regina de Araujo Gomes de Macedo, filha de Tomaz de Araujo Pereira e de Rita Regina de Albuquerque  Araujo Pereira. Manoel Salustino  e Ananília eram os pais do Desembargador Tomaz Salustino Gomes de Melo.
Os filhos de Francisco Umbelino e Felismina  Maria eram Francisco, José, Manoel, Antonio, Salvina, Maria, Tereza, Ursula e Maria Santa de Macedo Gomes. José Umbelino de Macedo Gomes era casado com Maria do O’ de Medeiros Gomes e desse casal nasceram os filhos, João Umbelino, Francisco Umbelino Neto (Pindoba), Fernando Umbelino, Miguel Umbelino, Balbino Umbelino (Medeiros), Tereza, Anita, Elita e Elima Umbelino.
 Salvina, uma das filhas de Francisco Umbelino e Felismina Maria,  casou com Francisco Rodrigues de Freitas. Desse casamento nasceu Felismina Rodrigues de Medeiros que casou com José Rodrigues de Medeiros (Zé Rodrigues do Bagé).
Maria Stela Rodrigues de Medeiros, filha desse último casal, casou com Francisco Umbelino Neto (Pindoba), primo de Felismina. Seu Pindoba e Dona Maria, meus sogros,  eram os pais de Maria das Graças minha esposa.

Artigos do blog de João Felipe Trindade.

Umbelina = pequena sombra

Umbelina = pequena sombra
Quando comecei a procurar informações sobre os Umbelinos tive algumas dificuldades para encontrar um ponto de partida. Depois, sabendo que o Desembargador e Vice-Governador  Tomaz Salustino era da família, tentei localizar alguma coisa sobre ele. Na internet todas tentativas me levaram para a mina Brejuí ou mineração Tomaz Salustino. Além disso, como tinha encontrado muitas pessoas com o nome Umbelina nos registros da Igreja procurei saber o significado desse nome. Minha mente sugeria três hipóteses: uma santa, alguma coisa relacionada ao umbigo ou a palavra umbrella. Coisas da mente. Nessas primeiras tentativas não consegui nenhuma informação. Agora, após o artigo sobre os Umbelinos voltei a procurar. Desta vez tive mais sorte. Na internet, depois de muitas procuras, descobri que havia uma Santa Umbelina. Sua data era 21 de Agosto e ela era irmã de São Bernardo de Claraval. Com certeza ela deveria estar presente naqueles calendários com um bloco de folhinhas. Em cada folhinha do bloco havia os nomes dos santos do dia.
Em outros sites, de forma simples, havia a informação que era uma palavra latina que significava pequena sombra. Na verdade minha mente tinha dado uma dica, pois a palavra umbrella em inglês ou italiano é guarda-chuva ou sombrinha.
Quanto ao artigo sobre os Umbelinos recebi alguns comentários. Anderson reforça que o Capitão José Gomes de Melo era casado com Urcula Francelina de Jesus de Macedo, filha de Antonio Ferreira de Macedo e Tereza Maria da Conceição de Macedo e que o túmulo do casal ainda resiste impávido no Cemitério de Currais Novos.
O meu amigo jornalista e escritor Luiz Gonzaga Cortez Gomes de Melo informa que era filho de Manoel Genésio Cortez Gomes, filho de José Gomes de Melo Junior irmão de Manoel Salustino e Francisco Umbelino. Diz mais que conhece Uilame Umbelino que é filho de Francisco Umbelino Neto (Seu Pindoba) e os irmãos Roberto Umbelino e o finado Munheca filhos de João Umbelino. Informa, ainda, que José Xavier Gomes fez uma pesquisa sobre os Gomes nos Cartórios de Campo Redondo e Currais Novos e que teria deixado um livro inédito. Ele ficou de conferir com a viúva Diva, prima de José Xavier Gomes, que mora em Cidade Satélite. Cortez estranhou o Título do Livro de Sebastião de Sebastião Bastos. Para ele, o Título seria "No roteiro dos Azevedo e outras famílias do Nordeste". Ele está certo. Na verdade tirei o nome que escrevi no artigo anterior  de um livro cópia, cujo título anunciado naquele artigo foi equivocadamente colocado na capa encadernada. Cortez, por sugestão minha, ficou de entrar em contato com Ormuz que faz um trabalho sobre o Barão de Araruna (irmão de Antonio Ferreira de Macedo e seus familiares e precisa de maiores informações dos parentes do mesmo. Cortez avisa que vai visitar Araruna no início do próximo mês.

Francisco Umbelino Neto (Seu Pindoba) era um católico fervoroso, devoto de Santa Rita, e por isso colocou nas filhas nomes religiosos: Joana D' Arc, Maria das Graças, Tereza Neuma, Ruth e Raquel. Esta última pede para conferir os nomes das tias Nitinha e Elima. Segundo ela seus nomes eram respectivamente Rita de Cássia e Margarida Guilherme. Mas Fernando Paiva (Nando, filho de Tia Nitinha e Benedito Paiva)  informa que tia Nitinha era Rita no cartório e Rita de Cássia no  batismo. Quanto a tia Elima seu nome seria, na verdade, Margarida Elima, o que foi confirmado por Zizi e Terezinha filhas dela. A outra filha de José Umbelino  de Macedo Gomes seria Maria Elita e não Elita. Enfim, são as discussões que geram correções e  promovem as reconstituições com mais fidedignidade.

Os Umbelinos

Os Umbelinos
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Boa parte das informações genealógicas que darei aqui, neste artigo, foi extraída do livro "No Roteiro dos Azevedos e outras famílias do nordeste", de Sebastião de Azevedo Bastos. É um livro com mais de 700 páginas que trata de muitas famílias aqui do Rio Grande do Norte. Raro, está sendo oferecido no site da Estante Virtual por R$ 900,00. Por sua extensão, o livro de Sebastião chega a ser confuso em alguns trechos, troca nomes em outros, havendo necessidade de muita paciência para destrinchar algumas partes. Não tive, ainda, oportunidade de conferir as informações nele contidas com os livros de registros da Igreja. Pode, portanto, haver equívocos.
 Escreveu Sebastião em um dos capítulos: "Resumidamente, de acordo com minhas notas, descrevo aqui a árvore genealógica citada nas referidas publicações "O Município de Picuí – Subsídio histórico, em que Abílio César diz o seguinte: "No começo do século passado veio da região denominada Serra Branca, em Pedra Lavrada, um fazendeiro experimentado, de nome Antonio Ferreira de Macedo, casado com Tereza Maria da Conceição Macedo, destinado a explorar terras na bacia do Rio Picuí ou Acauã, onde se estabeleceu com fazenda de gado, constituindo um dos troncos da família Macedo, naquela zona, sendo irmão de Vicente Ferreira de Macedo e Estevão José da Rocha, este o Barão de Araruna, da história política de Bananeiras.
Como consta neste capítulo, esses três irmãos eram filhos do casal Antonio Ferreira de Macedo e Anna Arruda Câmara Ferreira de Macedo, netos de Manoel Ferreira de Macedo e de Rosa Maria Ferreira de Macedo e do capitão-mor Francisco de Arruda Câmara e de Maria Saraiva da Silva Arruda Câmara, deixando o casal Antonio Ferreira de Macedo e Tereza Maria da Conceição, os filhos com a descendência seguinte."
Dessa relação citada no livro, destaco Thereza de Barros Macedo e Urçula de Macedo Gomes de Melo. Em outro trecho Urçula é apresentada como filha de Vicente, irmão de Antonio Ferreira de Macedo, mas é corrigido por Sebastião.
Thereza era casada com Antonio Guilherme de Macedo, seu primo, filho do casal Vicente Ferreira de Macedo e Tedora  de Barros Macedo. Em outro trecho, Antonio aparece como filho de Vicente Ferreira de Vasconcelos e Mariana Ferreira de Vasconcelos, outra contradição. Teodora, por sua vez, era filha de Antonio José de Barros (Morgado) e de Isabel Ferreira de Mendonça Barros, neta do casal Antonio Paes de Bulhoes e Anna de Araujo Pereira Paes Bulhoes, e  bisneta do patriarca Tomaz de Araujo Pereira e sua esposa Maria da Conceição de Mendonça Pereira.
Entre os filhos de Thereza e Antonio Guilherme está Felismina Maria de Macedo Gomes que era casada com Francisco Umbelino Gomes de Melo, filho de José Gomes de Melo e Urçula de Macedo Gomes de Melo. Portanto, Felismina e Francisco Umbelino Gomes de Mello eram primos legítimos.
José Gomes de Melo, esposo de Urçula, é citado como filho de José Gomes de Melo e Anna Maria Gomes de Melo, primitivos proprietários da Fazenda São Miguel do município de Currais Novos. O nome Umbelino foi adotado como sobrenome por alguns dos descendentes de Francisco Umbelino.
Entre os filhos de José Gomes de Melo e Urçula de Macedo Gomes de Melo estão Francisco Umbelino Gomes de Melo, citado acima; Luiz Gomes de Melo Lula,casado em primeira núpcias com Tereza de Melo e em segunda com Maria Idalina Rocha de Melo Lula; e  Manoel Salustino Gomes de Macedo casado com Ananília Regina de Araujo Gomes de Macedo, filha de Tomaz de Araujo Pereira e de Rita Regina de Albuquerque  Araujo Pereira. Manoel Salustino  e Ananília eram os pais do Desembargador Tomaz Salustino Gomes de Melo.
Os filhos de Francisco Umbelino e Felismina  Maria eram Francisco, José, Manoel, Antonio, Salvina, Maria, Tereza, Ursula e Maria Santa de Macedo Gomes. José Umbelino de Macedo Gomes era casado com Maria do O' de Medeiros Gomes e desse casal nasceram os filhos, João Umbelino, Francisco Umbelino Neto (Pindoba), Fernando Umbelino, Miguel Umbelino, Balbino Umbelino (Medeiros), Tereza, Anita, Elita e Elima Umbelino.
 Salvina, uma das filhas de Francisco Umbelino e Felismina Maria,  casou com Francisco Rodrigues de Freitas. Desse casamento nasceu Felismina Rodrigues de Medeiros que casou com José Rodrigues de Medeiros (Zé Rodrigues do Bagé). Maria Stela Rodrigues de Medeiros, filha desse último casal, casou com Francisco Umbelino Neto (Pindoba), primo de Felismina. Seu Pindoba e Dona Maria, meus sogros,  eram os pais de Maria das Graças minha esposa.